A importância do contexto e da linguagem na concepção do discurso político

       O estudo das relações internacionais não se deve focar apenas no comportamento dos Estados, mas também nas crenças e expectativas que compartilham entre si.

     Para compreender a génese do sistema internacional onde se relacionam é preciso ter em conta, em primeiro lugar, que este deve ser considerada “uma realidade (…) socialmente construída por estruturas cognitivas que dão significado ao mundo material” (Adler, 1997: 319).

      Na cena internacional, os Estados constituem “as unidades principais de análise” (Wendt, 1994: 385) e estabelecem relações uns com os outros através do diálogo, formando alianças, por exemplo, ou do uso da força, respondendo a ameaças que ponham em causa a sobrevivência dos Estados e a ordem internacional.

     No que diz respeito ao acto discursivo, é nele que os actores políticos, sejam eles indivíduos ou Estados, expressam as suas crenças, expectativas ou intenções, sendo que este “contribui para a criação e recriação constante das relações, sujeitos, (…) e objectivos que povoam o ‘mundo social’” (Fairclough, 1995: 73). Por outras palavras, trata-se de “um conjunto particular de convenções discursivas [que] incorpora implicitamente certas ideologias – conhecimentos e crenças particulares, ‘posições’ particulares para os tipos de sujeito social que participa dessa prática (…) e relações particulares entre categorias de participantes (…)” (Fairclough, 1995: 94).

   Importa salientar ainda, a este respeito, que “o discurso é moldado por estruturas, mas também contribui para moldá-las e remodelá-las, reproduzi-las e transformá-las”, sendo que a noção de estrutura neste sentido “tem a virtude de mostrar eventos, prática discursiva real a serem constrangidas por convenções sociais, normas, histórias” (Fairclough, 1995: 11).

   Neste domínio, existem dois aspectos fundamentais sem os quais é impossível proceder à construção de um discurso, a ver, a linguagem e o contexto. A articulação dos dois torna-se fundamental para que os decisores políticos sejam capazes de se exprimirem relativamente a uma situação.

      Na dimensão linguística, “a natureza da formulação e implementação de políticas varia de acordo com as estruturas políticas e organizacionais dentro das quais [a linguagem] ocorre” (Fairclough, 1995: 92), assumindo, desde logo, que “a linguagem é um fenómeno social” (Wodak & Meyer, 2001: 6).

       Repare-se que a linguagem “é um instrumento” (Wittgenstein, 1958: 151) e “não apenas um meio de comunicação” (Wittgenstein, 1989: 83), sendo que os conceitos que desenvolve são “a expressão do nosso interesse e direccionam o seu interesse” (Wittgenstein, 1958: 151).

    Na verdade, na política, “a linguagem indica o poder, expressa o poder, está envolvida onde há contenção e desafio ao poder”, tendo fundamental impacto na alteração das “distribuições de poder a curto e longo prazo” (Wodak & Meyer, 2001: 11) e como tal expressa, igualmente, os interesses de cada Estado.

    O contexto, por sua vez, tem impacto em diversas áreas na dimensão politica, sendo que deve ser “definido como a estrutura mentalmente representada daquelas propriedades da situação social que são relevantes para a produção ou compreensão do discurso, [consistindo] em categorias como definição geral da situação, cenário (tempo, lugar), acções em andamento (incluindo discursos e géneros discursivos), participantes em vários papeis comunicativos, sociais ou institucionais, bem como as suas representações mentais, objectivos, conhecimentos, opiniões, atitudes e ideologias” (Van Dijk, 2001: 356).

   Neste sentido, importa lembrar que aqui as estruturas sistémicas intersubjetivas ganham maior importância, uma vez que “consistem em entendimentos, expectativas e conhecimento social partilhados, incorporados em instituições internacionais e complexos de ameaças, sob os quais os Estados definem as suas identidades e interesses” (Wendt, 1994, p. 389).

    Assim, o contexto, conflitual ou não, apresenta-se como o meio onde decorrem as relações sociais e dão origem às políticas que defendem os interesses de cada Estado. Deste modo, os Estados relacionam-se com base em “contextos de interacção” (Wendt, 1994: 389) que podem ser “históricos e político-económicos” (Fawcett, 2013: 20):

     Além disso, os contextos ainda podem ser sociais, culturais e políticos e podem influenciar as interações socioculturais, económicas e políticas e a interdependência que se verifica entre os Estados, sendo que deles resultam normas, instituições domésticas e externas e, acima de tudo, objetivos comuns.

    Um dos muitos exemplos mais recentes, onde é perceptivel a importância que tem a articulação entre a linguagem e contexto no acto discursivo é o discurso do Presidente Joe Biden na Polónia, feito no dia 21 de Fevereiro de 2023, a propósito do primeiro aniversário da invasão da Ucrânia levada a cabo por Vladimir Putin.

    Em primeiro lugar, importa identificar o contexto em que o mesmo é feito, sendo que depende, necessariamente da sua natureza e a linguagem que podem estar presentes no discurso.

      Num contexto conflitual, em que considera esta invasão como sendo a “maior guerra terrestre desde a Segunda Guerra Mundial”[1], o presidente norte-americano dá ênfase a uma palavra em particular no seu discurso: liberdade, afirmando que “não há palavra mais doce do que liberdade, [que] não há objectivo mais nobre do que a liberdade, [ou seja], não há aspiração maior do que a liberdade”[2].

     Em suma, no discurso acima referido, é possível estabelecer uma relação entre o contexto e a linguagem na medida em que palavras como ‘liberdade’ ou ‘democracia’ surgem como princípios fundamentais para combater a ‘agressão’ ou lutar pelo principio da ‘soberania’ e especialmente para tentar garantir a ‘paz’ e a ‘segurança’ ganham mais força em contextos conflituais.

Referências bibliográficas

Adler, E. (1997). Seizing the middle ground: Constructivism in world politics, European journal of international relations, 3(3), 319-363.

Dijk T., 18 Critical Discourse Analysis in Hamilton, H. E., Tannen, D., & Schiffrin, D. (2001). The handbook of discourse analysis. John Wiley & Sons, pp. 353-63, Oxford Blackwell

Fairclough, N. (1995). Critical discourse analysis: The critical study of language. Longman Publishing, New York

Fawcett, L., (2013), ”International Relations of the Middle East”, Third Edition, Oxford University Press

Wendt, A., (1994), Collective identity formation and the international state, American political science review, 88(2), 384-396.

Wittgenstein, L., Anscombe, G. E. M. (trad.), (1958), Philosophical Investigations, Basil Blackwell Ltd., Oxford

Wittgenstein, L. (1989), Fichas (Zettel), edições 70, Lisboa

Wodak, R., & Meyer, M. (Eds.). (2001). Methods of critical discourse studies. SAGE Publications

Recursos electrónicos

https://www.whitehouse.gov/briefing-room/speeches-remarks/2023/02/21/remarks-by-president-biden-ahead-of-the-one-year-anniversary-of-russias-brutal-and-unprovoked-invasion-of-ukraine/


[1] Consultar em: https://www.whitehouse.gov/briefing-room/speeches-remarks/2023/02/21/remarks-by-president-biden-ahead-of-the-one-year-anniversary-of-russias-brutal-and-unprovoked-invasion-of-ukraine/

[2] Ibidem

Faça o primeiro comentário a "A importância do contexto e da linguagem na concepção do discurso político"

Comentar

O seu endereço de email não será publicado.


*