Comentários Sobre a Guerra da Ucrânia

Por Alexandre Almeida

“A Ucrânia sempre aspirou a ser livre; mas, cercada por Moscovo, pelos Estados do grande senhor e pela Polónia, teve que procurar um protetor e, consequentemente, um mestre em um desses três. Ela colocou-se primeiro sob a proteção da Polónia, que a tratou com grande severidade; depois entregou-se ao Moscovita, que a governou como sua escrava tanto quanto ele pôde.”

 Voltaire – História de Carlos XII (1731)

A agressão russa continua, com mísseis a cair nas cidades de Vinnytsia, Kramatorsk, Mykolaiv, Dnipro, Bakhmut e tantas outras. Os nomes destas cidades ficam connosco por um breve momento, entram na nossa cabeça e saem à medida que se passa de um relato para outro. Mais um centro comercial, mais uns apartamentos, mais um carrinho de bebé turvo com apenas uma mancha vermelha a transmitir ao Ocidente o que se enfrenta diariamente a Leste. À medida que se entra no quinto mês da “operação militar especial” de 72 horas, o objetivo destes ataques é claro: causar o máximo de mortes e esperar que o medo causado acelere a capitulação do governo de Volodymyr Zelensky. Mais de 17 mil ataques russos destinaram-se a alvos civis, desde 24 de fevereiro. Alvos militares foram apenas 300. Talvez exista uma dimensão em que haja a coragem de apelidar isto de terrorismo. Talvez se a Rússia não possuísse armas nucleares, ou se não detivesse um lugar permanente no Conselho de Segurança, herdado do império que juntamente com a Bielorrússia e a Ucrânia, ajudou a destruir por dentro em 1991.

Consideremos em primeiro lugar a possibilidade de uma vitória militar russa na Ucrânia. Rapidamente seguir-se-ia a “desnazificação” deste país. Ou, como revelado num artigo acidentalmente publicado no site RIA Novosti dois dias depois do começo da invasão, a “resolução da questão ucraniana”. Enquanto a propaganda para o exterior consiste em morosos sermões sobre as hordas nazis de Kyiv e a expansão territorial da NATO, regurgitada com gosto pelos imbecis úteis nos extremos em ambos lados do espectro político, bastou um clique acidental para revelar que o pseudo-czar vai nu, apenas dois dias depois do início da sua mui valorosa campanha. Inebriado numa ilusão de grandeza que o impele a inscrever o seu nome junto dos grandes conquistadores da História, Vladimir Putin vê-se como o novo Pedro, o Grande. O magno colecionador de terras, o vingador da catástrofe dos anos 90. Assim, o queixume do Ocidente, as sanções, as baixas russas rapidamente escondidas em crematórios móveis, os inocentes ucranianos mortos, todos estes fatores são meros sacrifícios a enfrentar em nome do derradeiro objetivo: o retorno do império e a reunificação dos três povos – russos, bielorrussos e ucranianos – alegres sob a bota do Kremlin. Nada disto é novo, mas compreende-se algum choque. À distância certa, com tempo suficiente, as mortes transformam-se em estatísticas e a brutalidade imperialista é normalizada. É certo que os detalhes da história e política da Rússia e da Ucrânia são demasiado complexas para serem condensadas de forma fidedigna num breve artigo. Porém, que isso não impeça que se reconheçam os porquês da Europa experienciar a sua primeira guerra em larga escala desde a II Guerra Mundial.

Volte-se um milénio atrás no tempo. Em 988, o grão-príncipe do Rus de Kyiv, Vladimir, converteu-se a si e aos seus súbditos ao cristianismo. Em troca, foi-lhe concedida em casamento a mão da irmã de Basílio II, governante do Império Romano do Oriente. A cristianização deste reino lançou as bases para uma profunda ligação cultural e religiosa entre Kyiv e Constantinopla. É a partir deste evento que Vladimir Putin constrói uma narrativa histórica destinada a justificar uma espécie de “união” entre os povos da Rússia, Bielorrússia e Ucrânia. Através do seu ensaio de mais de 5 mil palavras, publicado em 2021, é possível compreender a mentalidade que conduziu às atrocidades como as sentidas em Bucha: a obsessão de um tirano em cimentar o seu legado como o homem que reconstruiu o grande império russo. A noção de “união” entre estes povos traduz-se na tese irredentista da Nação Triuna, segundo a qual a Rússia é composta por três sub-nações – a Grande Rússia (Velikorossiya, Rússia), a Pequena Rússia (Malorossiya, Ucrânia) e a Rússia Branca (Belorossiya, Bielorrússia). Em 1527, Ivan, o Terrível, foi coroado “Czar de Todas as Rússias”. Porém, a teoria só começou a ser formalizada a partir do século XVIII, com as partições da antiga Polónia-Lituânia entre a Prússia, a Áustria e a Rússia. Enquanto a maioria do território da atual Ucrânia ficou sob controlo russo, a região ocidental da Galícia foi incorporada no império dos Habsburgo. Isto significou uma maior autonomia da sua população ucraniana, dado tanta a pobreza extrema do território como a necessidade de contrabalançar o peso das minorias polacas.

Por outro lado, a união dos povos na prática consistiu no domínio imperial e colonial da Rússia perante as restantes partes integrantes. Como podemos observar hoje nos territórios ocupados, incluindo a Crimeia, um esforço impressionante tem sido empregue para suprimir a língua e cultura ucraniana ao longo dos últimos 4 séculos. Olhemos agora para alguns exemplos. Pedro o Grande proibiu em 1720 a impressão de livros em ucraniano e sujeitou-os à censura um ano depois. Em 1729, Pedro II estabeleceu o russo como a língua oficial do seu governo e ordenou que toda a documentação em ucraniano fosse reescrita. A czarina Catarina a Grande baniu o ensino em ucraniano na histórica universidade Kyiv-Mohyla e em 1764 decretou a “russificação” da Finlândia, Ucrânia e dos Bálticos. O russo era agora obrigatório em todas as igrejas do império e todas as escolas de língua ucraniana foram banidas. Em 1847, dois anos depois da sua fundação, foi desmantelada a Irmandade dos Santos Cirilo e Metódio, uma sociedade secreta política encabeçada por revivalistas ucranianos como Nikolay Kostomarov, Mykhailo Hrushevski, Panteleimon Kulish e o poeta Taras Shevchenko. A Circular Valuev de 1863 proibiu muitas publicações religiosas e educacionais, afirmando que “uma língua própria da Pequena Rússia nunca existiu, não existe e nunca existirá”. Esta política de supressão perpetuou-se até aos últimos dias da monarquia, com Alexandre II, Alexandre III e Nicolau II. Depois de uma breve experiência como Estado independente entre 1918 e 1921, a Ucrânia foi forçosamente incorporada na recém-consolidada União Soviética. Porém, novamente a sua autonomia cultural simbolizou uma ameaça para o Kremlin. Apesar da liberalização cultural promovida por Lenin a partir de 1923, a ascensão de Josef Stalin deu lugar a uma renovada repressão maciça. O Holodomor, a política de fome implementada pelo Estado soviético de 1932 e 1933, visou a obliteração tanto dos agricultores que se opunham à coletivização das suas terras, como da Igreja Ortodoxa autocéfala, das elites políticas e culturais da Ucrânia e a sua substituição por não-ucranianos.

A invasão da Ucrânia é, assim, a conclusão lógica do esforço levado a cabo pela máquina de propaganda de Putin para afogar a população russa num mar de deturpações. Muito se fala em “interesses russos”, mas como escreve o historiador Nikolay Koposov, a Rússia enquanto país, enquanto conjunto de seres humanos não possui a subjetividade necessária para definir interesses comuns. Ou seja, ao controlar os fluxos de informação e manter vivo uma espécie de culto estatal assente na fabulação da História, Putin trabalha ativamente em diluir a própria verdade e assenhora-se do direito em falar em nome da nação. O que se define hoje como “putinismo” é meramente uma amálgama de narrativas de grandeza histórica, escolhidas a dedo para legitimar Vladimir Putin e a sua clique de oligarcas. Como já foi mencionado, o etno-nacionalismo de Putin assenta no Rus de Kyiv e na conversão do príncipe Vladimir, mas onde é que isso deixa o nazismo e a “desnazificação”? É preciso então mergulhar no culto estatal da vitória. Como explica o jornalista Kamil Galeev, o falhanço da URSS em atingir a sociedade sem classes anunciada por Marx e Engels – apesar de Khrushchev prometer que o faria na década de 60 – levou a que Leonid Brezhnev definisse a vitória sobre a Alemanha nazi como novo fundamento da sua legitimidade. O caos da década de 90 permitiu o surgimento de Putin e o reaproveitamento deste culto da vitória. Novamente o futuro foi sacrificado em nome de um passado idílico, no qual a grande Mãe Rússia salvou sozinha o mundo do grande mal do nazismo. Desconsidera-se assim o papel ativo da União Soviética em reconstruir a máquina de guerra de Hitler e a sua colaboração com esta até 1941, data em que a Alemanha deu início à Operação Barbarossa. Ignora-se também os 160 milhões de dólares em apoios providenciados pelo Lend-Lease norte-americano à União Soviética. Por último, justificam-se os aspetos mais nefastos da ocupação da Europa de Leste durante a Guerra Fria, salientando-se as repressões tanto da Revolução Húngara de 1956 como da “Primavera de Praga” de 1968.  Ora, porque é que estes países se queixam? Eles deveriam estar gratos pelo sacrifício russo durante a Grande Guerra Patriótica.

Ênfase especial no “russo”. Os soldados das restantes repúblicas soviéticas (incluindo a Ucrânia) e a miríade de minorias étnicas que lutaram e morreram durante a guerra muito convenientemente deixam de importar. Isto é crucial por dois aspetos. Em primeiro lugar, enquanto o Ocidente insiste em dar voz apenas aos habitantes de Moscovo e São Petersburgo, a maioria das baixas russas na Ucrânia provém de regiões periféricas, como o Daguestão no Cáucaso ou a Buriácia na fronteira com a Mongólia. Dados do órgão independente russo Mediazona mostram que dos quase 4 mil soldados mortos desde o início do conflito, 207 provém do Daguestão, 164 da Buriácia, 125 e 120 de Volgogrado e Krasnodar respetivamente, também situados no Cáucaso. Moscovo e São Petersburgo, por sua vez, apenas apresentam 8 e 26 baixas. Esta desproporcionalidade é explicada pelo maior crescimento populacional nestas regiões (em contraste com o grave declínio sentido na maioria do país durante as últimas três décadas) e pelos seus baixos salários e condições de vida, sendo homens jovens sem outras perspetivas de futuro aliciados pelas oportunidades oferecidas pelo exército. Em segundo lugar, já que o culto da vitória legitima toda e qualquer ação do Kremlin, logicamente também lhe dá o direito de designar como “nazi” todos os seus inimigos. Volodymyr Zelensky é líder de um regime nazi e o facto de ser falante nativo de russo e de ascendência judia é irrelevante, pois o próprio Hitler tinha ascendência judia. Pelo menos, segundo o Ministro dos Negócios Estrangeiros russo Sergey Lavrov. Só ao interpretar a noção russa de nazi – todo aquele que se insurge contra a vontade do Kremlin – é este absurdo justificável.

Que fiquem claras as intenções do regime de Putin: a eliminação da Ucrânia enquanto entidade política e cultural separada de Moscovo e a reafirmação da Rússia enquanto superpotência geopolítica, lugar esse conquistado pela força das armas. Na prática, isto significa o regresso do direito da conquista, revertendo a tendência do Direito Internacional no século XX em opor-se diretamente a este princípio. Até agora os exemplos mais claros de guerras de conquista haviam sido a invasão e anexação do Timor português pela Indonésia, em 1975, e do Kuwait pelo Iraque em 1990. Em ambos os casos, a forte pressão internacional levou a que tais projetos saíssem frustrados. No que toca à Ucrânia, o seu destino estaria dependente da capacidade russa em controlar os seus mais de 600 000 km2 de território. Desde a anexação ilegal da Crimeia em 2014 e o levantamento de forças “separatistas” que um dos tópicos favoritos da propaganda estatal russa tem sido a hipotética repartição ou anexação da Ucrânia, se esta deve ser restrita à região da Galícia ou incorporada parcialmente em devaneios imperialistas como os projetos da Novarússia (nome dado à faixa de território a sul da Ucrânia aquando do reinado de Catarina II) ou da Malorrússia (espécie de federação proposta por Alexandr Zakharchenko, então líder do Estado-fantoche russo em Donetsk, em 2017, que incluiria toda a Ucrânia menos a Crimeia).

Ao mesmo tempo, começa a esvair-se em fumo a ilusão de que o conflito russo-ucraniano se ficará pelas fronteiras destes países. O bloqueio russo aos portos do Mar Negro, nas palavras do diretor executivo do Programa Mundial de Alimentos, arrisca-se a ser “uma declaração de guerra à segurança alimentar global”. Depois de dez dias de manutenção, o controverso gasoduto Nord Stream 1 resumiu o seu funcionamento. Porém, Robert Habeck, ministro da Economia alemão, e Bruno Le Maire, ministro das Finanças francês, vêem-se obrigados a constatar o óbvio e a prepararem-se para o pior. Se, de facto, a torneira um dia fechar de vez, as consequências mais claras serão uma intensificação da dependência europeia tanto dos combustíveis fósseis como de autocracias como os reinos do Golfo ou o Azerbaijão para colmatar o terramoto energético que se avizinha, assim como uma renovada polarização política e apelos a que se ceda à chantagem do Kremlin, colocando assim em causa a colaboração internacional em torno do armamento e auxílio económico de Kyiv. Depois, desfrutar-se-ia de paz no nosso tempo, como a Checoslováquia desfrutou depois de Munique. A “paz” espalhar-se-ia a Taiwan, desde sempre cobiçada pela China, e possivelmente à Moldova e mesmo a aliados da NATO, como a Letónia, Estónia e Lituânia.

Todos estes cenários, todos eles, dependem unicamente da inação da aliança atlântica. De forma alguma se pretende um conflito nuclear com resultados dantescos para a Humanidade como um todo, mas é errado assumir que o Ocidente esgotou as suas opções a lidar com uma Rússia cada vez mais agressiva. Como realça Dan Altman na Foreign Affairs, os Estados Unidos superaram as maiores crises da Guerra Fria – o bloqueio de Berlim de 1948/49 e a crise dos mísseis de Cuba de 1962 – ao assumirem riscos sem diretamente ultrapassar linhas vermelhas. O mesmo deve ser feito em relação à invasão da Ucrânia. Ou seja, devem ser eliminados quaisquer limites arbitrários no envio de armas a Kyiv, intensificar as sanções sobretudo nas áreas da energia e das finanças e, na opinião de Altman, encorajar e equipar soldados e veteranos que se voluntariem para lutar sob a insígnia e estrutura de comando da Ucrânia.

Vladimir Putin apresenta-se como um exemplo do realismo político destilado ao seu aspeto mais bárbaro, um gangster que viola todas as normas e tratados internacionais que não o beneficiem. O que Putin respeita, como afirma Mikhail Khodorkovsky, um dos seus principais adversários, é a força. A expansão da NATO, constrangida por um mítico direito de Moscovo à sua esfera de influência, acabou por se confirmar com a eventual adesão da Suécia e da Finlândia. Uma vez que Putin adora inventar motivos históricos para agressões militares, porque é que ainda não caíram bombas em Helsínquia, cidade que já foi russa, ou Estocolmo, antiga Némesis do czar Pedro durante a Grande Guerra do Norte? A resposta é clara, estes países rejeitaram livremente a intimidação russa e a NATO respondeu ao seu apelo. Ao contrário do que aconteceu com a Ucrânia, com Macron e Schulz a publicamente apelar a um acordo em que Putin não saia “humilhado”. À medida que a guerra se prolonga e como deveríamos todos saber nesta altura, é esta mentalidade que é vista pela Rússia como uma provocação e como um convite a escaladas futuras.

Webgrafia

The War in Ukraine Is a Colonial War

The Kremlin’s Obsession with Glorifying Falsified History

Vladimir Putin’s Rewriting of History Draws on a Long Tradition of Soviet Myth-Making

Putting Putin’s false history of Ukraine into perspective

Kamil Galeev – Ukrainian “Neonazis”

Kamil Galeev – World War Z and Russian minorities

“The resolution of the Ukraine question.”

Vladimir Putin’s WWII victory cult is a recipe for international aggression

Nobody knows what Russians want. Not even Russians themselves.

Young, poor and from minorities: the Russian troops killed in Ukraine

The Republic of Buryatia: invasion of Ukraine is an extension of Russia’s domestic dominance over the country’s ethnic minorities

Who is dying for the «Russian World»?

Russia’s ‘Shadow Mobilization’ Accelerates With New Ethnic Units From The North Caucasus

Fact-checking Putin’s claims that Ukraine and Russia are ‘one people’

The Ukrainian Genocide

This is what the ‘Russification’ of Ukraine’s education system looks like in occupied areas

Chronology of Ukrainian language suppression

All-Russian nation

Russia’s War Against Ukraine Has Turned Into Terrorism

No compromises with the Kremlin: Why we must denazify Putin’s Russia

What Putin Fears Most

Europe braces for gas ‘nightmare’ as pipeline from Russia shuts off

Russia resumes gas flows to Europe after fears of a total shutdown

Russia Strikes Odesa Port, Stirring Doubts on Deal to Export Grain

The coming food catastrophe

How to end Russia’s Black Sea blockade

Rebel leader: New state of ‘Malorossiya’ will replace Ukraine

The West Worries Too Much About Escalation in Ukraine

Putin is already at war with Europe. There is only one way to stop him

Russia’s War on Ukraine

Mikhail Khodorkovsky on how to deal with the “bandit” in the Kremlin

Russian Sanctions Are Working but Slowly

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