A GUERRA DA UCRÂNIA E O FIM DO IDEALISMO ALEMÃO

Por: Alexandre Almeida

Anos de debates sobre a aparente fraqueza ou “morte cerebral” da NATO esvaíram-se em fumo à medida que o seu propósito ficou extremamente claro pela primeira vez desde a intervenção na Jugoslávia ou até desde o fim da URSS. No que poderá ser entendido como uma ironia de calibre histórico, a ofensiva da Rússia de Vladimir Putin conseguiu unificar não só os ucranianos em torno do seu presidente, Volodymyr Zelensky, mas a União Europeia, a NATO, o Japão e Taiwan, entre outros, à medida que a lista de pesadas sanções se foi desenrolando. Em vez de deixar o urso se refastelar com mais um sacrifício humano e talvez pedir com bons modos para não se ser a seguir, o Ocidente tem feito esforços para isolar a Rússia da comunidade internacional e pressioná-la a abandonar a sua política de expansão territorial.

Possivelmente a mais significativa destas alterações de comportamento será a do governo alemão de Olaf Scholz. Três dias após a invasão, o chanceler social-democrata havia anunciado perante o Bundestag um investimento de 100 mil milhões de euros nas suas forças armadas, ao mesmo tempo que se comprometia a ir além do mínimo de 2% do PIB nacional para a defesa. Dois dias antes da invasão, o governo alemão havia colocado travão na construção do polémico Nord Stream 2, um gasoduto de gás natural que se estenderia por 1,234 km, em reação ao reconhecimento das autoproclamadas “repúblicas populares” de Donetsk e Luhansk, por parte da Rússia. Para além disto, a lei que obrigava cada alemão adulto do sexo masculino a optar por um ano de serviço militar ou comunitário, abolida em 2011, poderá estar de novo em cima da mesa.

O discurso de Scholz simbolizou uma mudança sísmica na política externa alemã em relação à Rússia, depois de duas décadas dominadas pela máxima “Wandel durch Handel” (mudança através do comércio). As suas principais linhas de força deixaram de ter qualquer ligação com a realidade, se é que alguma vez tiveram. Estas, segundo Sofia Besch e Sarah Brockmeier, eram as seguintes: a ideia da Alemanha como mediadora entre Este e Oeste, a premissa de que, para uma ordem securitária duradoura na Europa, a Rússia não era um adversário a combater, mas sim um agente a integrar e, acima de tudo, que a paz seria assegurada através da interdependência económica. Pretende-se assim analisar os motivos por detrás deste falhanço e tentar compreender qual o caminho a seguir no futuro. Nas palavras da ministra do Exterior Annalena Baerbock, três dias depois do começo da invasão: “se o nosso mundo é diferente, então a nossa política deve ser diferente”.

BERLIM ENTRE O TRAUMA E A NOSTALGIA:

 Como chegámos aqui? Olhando para a história contemporânea da Alemanha, consegue-se identificar dois grandes períodos históricos que definem a sua política externa, um pelos seus efeitos nefastos e outro pelos seus aparentes sucessos. É evidente que o primeiro, conforme salienta Gustav Gressel, membro sénior do European Council on Foreign Relations, é o trauma associado ao nazismo, sendo este o principal motivo por detrás da relação especial com a Rússia. Mesmo à medida que as forças russas se concentravam na fronteira com a Ucrânia, em fevereiro deste ano, tanto Baerbock como o presidente alemão, Frank-Walter Steinmeier, defenderam a sua inação face ao envio de armas à Ucrânia e à Nord Stream 2, respetivamente, recorrendo à culpa coletiva associada ao passado da II Guerra. O outro motivo, escreve Gressel num e-mail enviado à Deutsche Welle, trata-se de uma empatia sentida em relação aos sentimentos nutridos pela Rússia em relação à ordem internacional pós-Guerra Fria, estabelecendo um paralelo entre a reação alemã ao Tratado de Versalhes, de 1919.

Logo aqui, reconhece-se um pretexto para eventuais revanchismos. Em 2001, após as guerras travadas na Chechénia, Putin recebia uma ovação em pé no Bundestag, ao discursar (em alemão) que a Guerra Fria havia chegado ao fim, que “hoje devemos renunciar aos nossos estereótipos e ambições e a partir de agora iremos trabalhar em conjunto pela segurança da Europa e do mundo como um todo”. Quatro anos depois, Putin descrevera o colapso da URSS como “a maior catástrofe geopolítica do século XX”. A verdadeira mudança de retórica veio em 2007, na Conferência de Segurança de Munique. Aqui, o presidente russo questionou abertamente a predominância norte-americana na política internacional, a “expansão” da NATO para Leste e o projeto para um sistema de defesa antimíssil na Europa patrocinado pela Aliança Atlântica. Um ano depois, tanques russos irrompiam por Tbilisi, capital da Geórgia. As regiões da Ossétia do Sul e da Abecásia continuam até hoje sob ocupação russa, sendo reconhecidas pela maioria da comunidade internacional como partes integrantes do Estado georgiano.

Compreende-se, então, que o trauma histórico pode desempenhar um papel crucial na direção tomada por um país. Igualmente importante é o apego que se pode ter a algo que deu frutos no passado. Fala-se, portanto, da (Neue) Ostpolitik, que marcou o mandato do social-democrata Willy Brandt, de 1969 a 1974. Os seus sucessos incluem o fim da chamada Doutrina Hallstein, que negava quaisquer relações diplomáticas entre a Alemanha Ocidental e qualquer país que reconhecesse a Alemanha Oriental, assim como o reconhecimento das fronteiras alemãs com a Polónia (a linha Oder-Neisse), culminando este último com a visita do então chanceler Willy Brandt à capital polaca, em 1970. O seu ajoelhar perante o memorial à resistência do Gueto de Varsóvia serviu como ilustração da nova Alemanha, ciente do seu passado e aberta a colaborar com os seus vizinhos. Esta aproximação ao bloco de Leste levou a um descongelar das relações, mas, na visão de Anders Umland, analista no Stockholm Centre for Eastern European Studies, não impediu ofensivas soviéticas noutros cantos do globo, como os dez anos de guerra com o Afeganistão[1]. A saída de cena de Brandt foi marcada pelo escândalo, com um dos seus assessores, Gunter Guillaume, a ser revelado como um agente infiltrado da Stasi.

O PAPEL DA INTERDEPENDÊNCIA:

Com a Ostpolitik pretendeu-se criar uma situação de interdependência positiva, ou seja, seria no interesse da União Soviética evitar escaladas militares no continente europeu, uma vez que isso colocaria em causa o estreitar de fluxos comerciais e energéticos com a Europa Ocidental. Parte-se então do conceito de dependência, definido por Robert Keohane e Joseph Nye como uma situação determinada por forças externas, para o de interdependência, que significa uma situação de dependência mútua. Para Stefan Meister, líder do programa de Ordem Internacional e Democracia do German Council on Foreign Relations, esta mentalidade prolongou-se após o colapso soviético, acreditando-se que a “mudança através do comércio” levaria automaticamente a uma aproximação da Rússia ao modelo ocidental. Isto é, a Alemanha pretendia uma situação de soma positiva[2]. Toda a gente ganharia com este plano, certo? Embora Meister aponte esta mentalidade como fruto do triunfalismo ocidental que se sentiu no imediato pós-Guerra Fria, existe uma lógica por detrás. Como Richard Haass, presidente do Council of Foreign Relations, salienta, a própria União Europeia é um exemplo claro de que é possível conciliar os interesses de países há muito condenados pela História a batalhar-se entre si através das ligações comerciais.

Mas o próprio Haass aponta uma falha gritante nesse raciocínio. O que acontece quando o desejo de aproximação não é recíproco ou a dependência mútua não é equilibrada? No caso russo-alemão, a aproximação falhou porque “os alemães precisam muito mais de gás russo do que a Rússia precisa de exportações”. Volte-se à posição de Meister. Moscovo interpretou a interdependência não como um benefício, mas como uma fragilidade a corrigir. Logo, a Rússia de Putin adotou uma postura neo-realista, segundo a qual a liberalização da economia e, eventualmente, das instituições governamentais constituem uma potencial ameaça interna ao regime[3]. A ocupação da Crimeia em 2014, bem como o fomento de movimentos separatistas em regiões ucranianas de maioria linguística russa, como Donetsk e Luhansk, deixou claro que, se a Rússia o entendesse necessário para proteger os seus interesses e apesar dos benefícios económicos com a aproximação à União Europeia, não hesitaria em tomar ações hostis ou mesmo invadir os seus vizinhos, Estados-membros da UE ou não. À data, enquanto a guerra contra a Ucrânia continua, escusado será reafirmar o óbvio.

GASODUTOS, DEPENDÊNCIA E CORRUPÇÃO ESTRATÉGICA:

Quão dependente está a Alemanha das importações russas? Segundo dados da Reuters, datados de dezembro de 2021, 32% do gás consumido provinha da Rússia. Cerca de 34% do crude alemão é russo. 53% do carvão usado na produção de energia e de aço é russo. Em países como a Macedónia do Norte, a Finlândia, a Bósnia-Herzegovina, a Moldávia e a Letónia, a situação é mais dramática: de 90 a 100% do gás natural consumido provém da Rússia, segundo dados da ACER[4], de 2020.

A 31 de dezembro do ano passado, o governo alemão optou por iniciar um processo de desativação das centrais nucleares nas regiões de Schleswig-Holstein, na Saxónia Inferior e na Baviera, processo esse que se estenderá por 20 anos e implicará um investimento de cerca de três mil milhões de euros, um por central. Apesar do aumento dos custos de energia já sentido meses antes da guerra na Ucrânia e da visão positiva da energia nuclear tanto em países vizinhos como a França como na opinião pública alemã, uma inversão de marcha parece estar fora dos planos. Na opinião do vice-chanceler Robert Habeck, manter as centrais nucleares operacionais não iria ajudar a Alemanha na “nesta situação de política externa”.

Está na altura de reconhecer o elefante na sala. Qual é a “situação de política externa” de que Habeck fala? A guerra na Ucrânia, sim, mas dentro desse tópico reside um aspeto crucial nas relações entre Berlim e Moscovo. Fala-se, pois claro, da ameaça por parte da Rússia de cortar o fornecimento de gás natural através do gasoduto Nord Stream 1. Ou seja, cumpriu-se a profecia de todos os críticos destes projetos, defendidos como puramente económicos, mas revelados como uma arma geopolítica no arsenal de Putin. Embora ainda em funcionamento, o vice-primeiro-ministro e antigo ministro da Energia, Alexander Novak, proclamou que a Rússia estaria no seu direito se tomasse ações que “espelhassem” o efeito das sanções impostas na sua economia.

O Nord Stream 1 estende-se por 1224 kms, partindo da cidade russa de Vyborg e atravessando o Mar Báltico até Lubmin, no nordeste alemão. Custando aproximadamente 7,3 mil milhões de euros, o gasoduto consegue transportar cerca de 27,5 mil milhões de metros cúbicos de gás natural por ano. O recém-cancelado projeto Nord Stream 2 duplicaria essa capacidade. O consórcio responsável pelo gasoduto, a Nord Stream AG, é sediado na Suíça e gerido por Matthias Warnig. Para além de confidente de longa data de Putin, Warnig é ex-agente da Stasi. O primeiro troço de linha foi inaugurado em novembro de 2011 e o segundo em outubro do ano seguinte. A aprovação da primeira pipeline havia sido um projeto político do então chanceler social-democrata Gerhard Schröder, conseguida em 2005, pouco antes de conceder o cargo a Angela Merkel após as eleições federais desse ano. Imediatamente após a sua retirada de cena, Schröder foi nomeado presidente do comité de acionistas da Nord Stream AG, inteiramente gerida pela empresa estatal russa Gazprom. Em 2017, o antigo chanceler acumulou também o cargo de presidente do conselho de diretores da petrolífera Rosneft.

Pause-se por um segundo e veja-se o que está em jogo aqui. Desde a independência da Ucrânia em 1991 que a Rússia tem procurado reduzir a importância de Kyiv no transporte de gás natural para a Europa. As elites russas encontraram em Berlim um desejo em corrigir traumas passados e colaborar através do comércio, assim como uma possibilidade de eles próprios aproximarem Berlim para a sua esfera de influência, tornando a maior economia europeia energicamente dependente de si. Não só veem aprovadas as Nord Stream 1 e 2, mas conseguem recrutar o anterior chanceler da Alemanha para posições de topo nas duas maiores empresas energéticas estatais. E este não é de todo mal agradecido, sendo um dos maiores apologistas de Vladimir Putin. Em 2014, justificou a ocupação de territórios ucranianos como uma resposta aos “medos de ser cercado” do presidente russo e comparando-a à intervenção na Sérvia em 1999, por parte da NATO. Outros exemplos incluem a defesa da intervenção russa nas eleições da Ucrânia e a recusa em atribuir qualquer culpa do envenenamento de Alexei Navalny ao regime de Putin.

Ao mesmo tempo, Schröder aparenta ter uma amizade pessoal e duradoura com o líder russo, chegando a descrevê-lo como um “democrata sem falhas”. A sua condenação da invasão de fevereiro, publicada no LinkedIn, embora identificasse a Rússia como o agressor, não deixou de salientar os “vários erros – em ambos os lados”. Conforme relatado no website Politico, a 10 de março, Schröder encontra-se em Moscovo, procurando mediar um projeto de paz com Putin. A relação do ex-chanceler com o regime russo gerou uma nova expressão – “Schröderização” – que pode ser interpretada como a corrupção da elite política de outro país. Ou seja, no emprego, por Putin, de anteriores líderes europeus em cargos prestigiados em empresas estatais russas. Outros exemplos incluem François Fillon, antigo candidato presidencial francês e agora membro do conselho de diretores da SIBUR, Wolfgang Schüssel e Christian Kern, ex-chanceleres da Áustria respetivamente em lugares de topo na RZD e na Lukoil,  Matteo Renzi, ex-primeiro-ministro da Itália na Delimobil e Esko Aho, ex-primeiro-ministro da Finlândia no Sberbank, o maior banco russo. Destes, à data deste artigo, apenas Fillon se mantém no cargo, com os restantes a demitirem-se em sequência da invasão russa da Ucrânia.

RECOMEÇAR DO ZERO: CONSIDERAÇÕES EM TOM DE CONCLUSÃO

É seguro dizer que a recente mudança de tom vinda de Berlim não estava nos planos de Olaf Scholz. Noah Barkin, no seu artigo para o The Atlantic, relembra que a campanha social-democrata assentava num projeto de continuidade com os mandatos de Merkel, com alusões ao legado da Ostpolitik deixado pelo SPD. Porém, a política ou mesmo a vida em geral tem a sua maneira de obrigar alguém a largar as suas preconceções e voltar à estaca zero. A Alemanha, nas palavras de Barkin, já não pode desempenhar o papel de “uma grande Suíça” nos dias de hoje, à medida que se vira a página da ordem internacional pós-Guerra Fria.

Esta nova posição vem em boa hora para a administração Biden, que considera a Alemanha essencial para a sua rede de alianças na Europa, assim como a França, que finalmente se veria livre de suportar nas suas costas o peso inteiro da defesa do continente. Escrevia Timothy Ogden, no New Europe em 2020, que um exército europeu era impossível já que as forças armadas alemãs se encontravam “cronicamente subfinanciadas” e com várias deficiências a nível logístico e táctico. Este descurar da defesa por parte da Alemanha foi descrito por Annegret Kramp-Karrenbauer, ministra da Defesa durante a era Merkel, como um “falhanço histórico”.

Assumindo que a invasão da Ucrânia marca o início de uma nova era nas relações internacionais, urge abandonar alguns essencialismos históricos, como a noção de que uma Alemanha militarizada representa para a Europa. Nos dias de hoje, Berlim é uma pedra basilar da União Europeia e membro integrante da NATO, assim como grande parte da Europa de Leste. É verdade que as relações entre a Alemanha e esses países têm espaço para melhorar, mas, como sublinhado no artigo de Sudha David-Wilp e Thomas Kleine-Brockhoff na Foreign Affairs, tal implicará o envio de forças para a Lituânia, a Eslováquia e a Roménia. Isto é, uma Alemanha mais focada em honrar as suas responsabilidades para com a aliança defensiva que integra é vista com bons olhos pelos restantes membros.

Talvez será cedo demais desenhar linhas de força para o governo alemão no futuro, contudo, no seu artigo para o site War on the Rocks, citado no início, Sophia Besch e Sarah Brockmeier apresentam as suas visões, salientando quatro grandes tarefas a cumprir: assegurar o apoio da opinião pública; contribuir abertamente para projetos de grand strategy tanto no seio da NATO como da UE; realizar uma reforma profunda na burocracia estatal e, por último, criar um Conselho de Segurança Nacional, de modo a que a política de segurança nacional seja capaz de responder aos complexos problemas por vir.

A antiga “terra de sangue”[5] que dantes se via encurralada entre Hitler e Stalin, hoje apenas reconhece um agressor: Vladimir Putin. Críticos da anterior política externa alemã durante anos alertaram para o que hoje parece redundante: o regime russo tem uma visão dos seus interesses completamente antagónica para com a noção de interdependência positiva defendida por Schröder, Merkel e Scholz. Nas palavras de Kristi Raik, diretora do Estonian Foreign Policy Institute no Centro Internacional de Defesa e Segurança de Tallinn, “não só é idealista, mas perigoso defender o contrário”.

ARTIGOS E PUBLICAÇÕES CITADAS:

Besch, S. & Brockmeier, S. (2022). Waking a Sleeping Giant: What’s Next for German Security Policy? War on the Rocks.

Meister, S. (2019). From Ostpolitik to EU-Russia Interdependence: Germany’s Perspective, in Raik, K. & Rácz, A. (org.). Post-Crimea Shift in EU-Russia Relations: From Fostering Interdependence to Managing Vulnerabilities. International Centre for Defence and Security, 25-45.

Umland, A. (2022). Germany’s Russia Policy in Light of the Ukraine Conflict: Interdependence Theory and Ostpolitik. Orbis, 66(1), 78-94.

de Haldevang, M. (2018). Putin’s relationship with Germany’s ex-leader has created a new word for corruption. Quartz.

Ogden, T. (2020). Why the Armed Forces of Europe isn’t possible. New Europe.

Barkin, N. (2022). Europe’s Sleeping Giant Awakens. The Atlantic.

Raik, K. (2021). New World Order: Germany’s Dangerous Idealism vis-à-vis Russia. Internationale Politik Quarterly.

Sudha, D-W. & Kleine-Brockhoff, T. (2022). A New Germany: How Putin’s Aggression Is Changing Berlin. Foreign Affairs.


[1] Umland, 2022

[2] Meister, 2019

[3] idem

[4] Agência de Cooperação dos Reguladores de Energia

[5] Expressão usada na obra do mesmo nome do historiador Timothy Snyder, para descrever a área da frente de Leste da II Guerra Mundial

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Por: Alexandre Almeida

Anos de debates sobre a aparente fraqueza ou “morte cerebral” da NATO esvaíram-se em fumo à medida que o seu propósito ficou extremamente claro pela primeira vez desde a intervenção na Jugoslávia ou até desde o fim da URSS. No que poderá ser entendido como uma ironia de calibre histórico, a ofensiva da Rússia de Vladimir Putin conseguiu unificar não só os ucranianos em torno do seu presidente, Volodymyr Zelensky, mas a União Europeia, a NATO, o Japão e Taiwan, entre outros, à medida que a lista de pesadas sanções se foi desenrolando. Em vez de deixar o urso se refastelar com mais um sacrifício humano e talvez pedir com bons modos para não se ser a seguir, o Ocidente tem feito esforços para isolar a Rússia da comunidade internacional e pressioná-la a abandonar a sua política de expansão territorial.

Possivelmente a mais significativa destas alterações de comportamento será a do governo alemão de Olaf Scholz. Três dias após a invasão, o chanceler social-democrata havia anunciado perante o Bundestag um investimento de 100 mil milhões de euros nas suas forças armadas, ao mesmo tempo que se comprometia a ir além do mínimo de 2% do PIB nacional para a defesa. Dois dias antes da invasão, o governo alemão havia colocado travão na construção do polémico Nord Stream 2, um gasoduto de gás natural que se estenderia por 1,234 km, em reação ao reconhecimento das autoproclamadas “repúblicas populares” de Donetsk e Luhansk, por parte da Rússia. Para além disto, a lei que obrigava cada alemão adulto do sexo masculino a optar por um ano de serviço militar ou comunitário, abolida em 2011, poderá estar de novo em cima da mesa.

               O discurso de Scholz simbolizou uma mudança sísmica na política externa alemã em relação à Rússia, depois de duas décadas dominadas pela máxima “Wandel durch Handel” (mudança através do comércio). As suas principais linhas de força deixaram de ter qualquer ligação com a realidade, se é que alguma vez tiveram. Estas, segundo Sofia Besch e Sarah Brockmeier, eram as seguintes: a ideia da Alemanha como mediadora entre Este e Oeste, a premissa de que, para uma ordem securitária duradoura na Europa, a Rússia não era um adversário a combater, mas sim um agente a integrar e, acima de tudo, que a paz seria assegurada através da interdependência económica. Pretende-se assim analisar os motivos por detrás deste falhanço e tentar compreender qual o caminho a seguir no futuro. Nas palavras da ministra do Exterior Annalena Baerbock, três dias depois do começo da invasão: “se o nosso mundo é diferente, então a nossa política deve ser diferente”.

BERLIM ENTRE O TRAUMA E A NOSTALGIA:

               Como chegámos aqui? Olhando para a história contemporânea da Alemanha, consegue-se identificar dois grandes períodos históricos que definem a sua política externa, um pelos seus efeitos nefastos e outro pelos seus aparentes sucessos. É evidente que o primeiro, conforme salienta Gustav Gressel, membro sénior do European Council on Foreign Relations, é o trauma associado ao nazismo, sendo este o principal motivo por detrás da relação especial com a Rússia. Mesmo à medida que as forças russas se concentravam na fronteira com a Ucrânia, em fevereiro deste ano, tanto Baerbock como o presidente alemão, Frank-Walter Steinmeier, defenderam a sua inação face ao envio de armas à Ucrânia e à Nord Stream 2, respetivamente, recorrendo à culpa coletiva associada ao passado da II Guerra. O outro motivo, escreve Gressel num e-mail enviado à Deutsche Welle, trata-se de uma empatia sentida em relação aos sentimentos nutridos pela Rússia em relação à ordem internacional pós-Guerra Fria, estabelecendo um paralelo entre a reação alemã ao Tratado de Versalhes, de 1919.

Logo aqui, reconhece-se um pretexto para eventuais revanchismos. Em 2001, após as guerras travadas na Chechénia, Putin recebia uma ovação em pé no Bundestag, ao discursar (em alemão) que a Guerra Fria havia chegado ao fim, que “hoje devemos renunciar aos nossos estereótipos e ambições e a partir de agora iremos trabalhar em conjunto pela segurança da Europa e do mundo como um todo”. Quatro anos depois, Putin descrevera o colapso da URSS como “a maior catástrofe geopolítica do século XX”. A verdadeira mudança de retórica veio em 2007, na Conferência de Segurança de Munique. Aqui, o presidente russo questionou abertamente a predominância norte-americana na política internacional, a “expansão” da NATO para Leste e o projeto para um sistema de defesa antimíssil na Europa patrocinado pela Aliança Atlântica. Um ano depois, tanques russos irrompiam por Tbilisi, capital da Geórgia. As regiões da Ossétia do Sul e da Abecásia continuam até hoje sob ocupação russa, sendo reconhecidas pela maioria da comunidade internacional como partes integrantes do Estado georgiano.

Compreende-se, então, que o trauma histórico pode desempenhar um papel crucial na direção tomada por um país. Igualmente importante é o apego que se pode ter a algo que deu frutos no passado. Fala-se, portanto, da (Neue) Ostpolitik, que marcou o mandato do social-democrata Willy Brandt, de 1969 a 1974. Os seus sucessos incluem o fim da chamada Doutrina Hallstein, que negava quaisquer relações diplomáticas entre a Alemanha Ocidental e qualquer país que reconhecesse a Alemanha Oriental, assim como o reconhecimento das fronteiras alemãs com a Polónia (a linha Oder-Neisse), culminando este último com a visita do então chanceler Willy Brandt à capital polaca, em 1970. O seu ajoelhar perante o memorial à resistência do Gueto de Varsóvia serviu como ilustração da nova Alemanha, ciente do seu passado e aberta a colaborar com os seus vizinhos. Esta aproximação ao bloco de Leste levou a um descongelar das relações, mas, na visão de Anders Umland, analista no Stockholm Centre for Eastern European Studies, não impediu ofensivas soviéticas noutros cantos do globo, como os dez anos de guerra com o Afeganistão[1]. A saída de cena de Brandt foi marcada pelo escândalo, com um dos seus assessores, Gunter Guillaume, a ser revelado como um agente infiltrado da Stasi.

O PAPEL DA INTERDEPENDÊNCIA:

               Com a Ostpolitik pretendeu-se criar uma situação de interdependência positiva, ou seja, seria no interesse da União Soviética evitar escaladas militares no continente europeu, uma vez que isso colocaria em causa o estreitar de fluxos comerciais e energéticos com a Europa Ocidental. Parte-se então do conceito de dependência, definido por Robert Keohane e Joseph Nye como uma situação determinada por forças externas, para o de interdependência, que significa uma situação de dependência mútua. Para Stefan Meister, líder do programa de Ordem Internacional e Democracia do German Council on Foreign Relations, esta mentalidade prolongou-se após o colapso soviético, acreditando-se que a “mudança através do comércio” levaria automaticamente a uma aproximação da Rússia ao modelo ocidental. Isto é, a Alemanha pretendia uma situação de soma positiva[2]. Toda a gente ganharia com este plano, certo? Embora Meister aponte esta mentalidade como fruto do triunfalismo ocidental que se sentiu no imediato pós-Guerra Fria, existe uma lógica por detrás. Como Richard Haass, presidente do Council of Foreign Relations, salienta, a própria União Europeia é um exemplo claro de que é possível conciliar os interesses de países há muito condenados pela História a batalhar-se entre si através das ligações comerciais.

               Mas o próprio Haass aponta uma falha gritante nesse raciocínio. O que acontece quando o desejo de aproximação não é recíproco ou a dependência mútua não é equilibrada? No caso russo-alemão, a aproximação falhou porque “os alemães precisam muito mais de gás russo do que a Rússia precisa de exportações”. Volte-se à posição de Meister. Moscovo interpretou a interdependência não como um benefício, mas como uma fragilidade a corrigir. Logo, a Rússia de Putin adotou uma postura neo-realista, segundo a qual a liberalização da economia e, eventualmente, das instituições governamentais constituem uma potencial ameaça interna ao regime[3]. A ocupação da Crimeia em 2014, bem como o fomento de movimentos separatistas em regiões ucranianas de maioria linguística russa, como Donetsk e Luhansk, deixou claro que, se a Rússia o entendesse necessário para proteger os seus interesses e apesar dos benefícios económicos com a aproximação à União Europeia, não hesitaria em tomar ações hostis ou mesmo invadir os seus vizinhos, Estados-membros da UE ou não. À data, enquanto a guerra contra a Ucrânia continua, escusado será reafirmar o óbvio.

GASODUTOS, DEPENDÊNCIA E CORRUPÇÃO ESTRATÉGICA:

               Quão dependente está a Alemanha das importações russas? Segundo dados da Reuters, datados de dezembro de 2021, 32% do gás consumido provinha da Rússia. Cerca de 34% do crude alemão é russo. 53% do carvão usado na produção de energia e de aço é russo. Em países como a Macedónia do Norte, a Finlândia, a Bósnia-Herzegovina, a Moldávia e a Letónia, a situação é mais dramática: de 90 a 100% do gás natural consumido provém da Rússia, segundo dados da ACER[4], de 2020.

A 31 de dezembro do ano passado, o governo alemão optou por iniciar um processo de desativação das centrais nucleares nas regiões de Schleswig-Holstein, na Saxónia Inferior e na Baviera, processo esse que se estenderá por 20 anos e implicará um investimento de cerca de três mil milhões de euros, um por central. Apesar do aumento dos custos de energia já sentido meses antes da guerra na Ucrânia e da visão positiva da energia nuclear tanto em países vizinhos como a França como na opinião pública alemã, uma inversão de marcha parece estar fora dos planos. Na opinião do vice-chanceler Robert Habeck, manter as centrais nucleares operacionais não iria ajudar a Alemanha na “nesta situação de política externa”.

                Está na altura de reconhecer o elefante na sala. Qual é a “situação de política externa” de que Habeck fala? A guerra na Ucrânia, sim, mas dentro desse tópico reside um aspeto crucial nas relações entre Berlim e Moscovo. Fala-se, pois claro, da ameaça por parte da Rússia de cortar o fornecimento de gás natural através do gasoduto Nord Stream 1. Ou seja, cumpriu-se a profecia de todos os críticos destes projetos, defendidos como puramente económicos, mas revelados como uma arma geopolítica no arsenal de Putin. Embora ainda em funcionamento, o vice-primeiro-ministro e antigo ministro da Energia, Alexander Novak, proclamou que a Rússia estaria no seu direito se tomasse ações que “espelhassem” o efeito das sanções impostas na sua economia.

               O Nord Stream 1 estende-se por 1224 kms, partindo da cidade russa de Vyborg e atravessando o Mar Báltico até Lubmin, no nordeste alemão. Custando aproximadamente 7,3 mil milhões de euros, o gasoduto consegue transportar cerca de 27,5 mil milhões de metros cúbicos de gás natural por ano. O recém-cancelado projeto Nord Stream 2 duplicaria essa capacidade. O consórcio responsável pelo gasoduto, a Nord Stream AG, é sediado na Suíça e gerido por Matthias Warnig. Para além de confidente de longa data de Putin, Warnig é ex-agente da Stasi. O primeiro troço de linha foi inaugurado em novembro de 2011 e o segundo em outubro do ano seguinte. A aprovação da primeira pipeline havia sido um projeto político do então chanceler social-democrata Gerhard Schröder, conseguida em 2005, pouco antes de conceder o cargo a Angela Merkel após as eleições federais desse ano. Imediatamente após a sua retirada de cena, Schröder foi nomeado presidente do comité de acionistas da Nord Stream AG, inteiramente gerida pela empresa estatal russa Gazprom. Em 2017, o antigo chanceler acumulou também o cargo de presidente do conselho de diretores da petrolífera Rosneft.

Pause-se por um segundo e veja-se o que está em jogo aqui. Desde a independência da Ucrânia em 1991 que a Rússia tem procurado reduzir a importância de Kyiv no transporte de gás natural para a Europa. As elites russas encontraram em Berlim um desejo em corrigir traumas passados e colaborar através do comércio, assim como uma possibilidade de eles próprios aproximarem Berlim para a sua esfera de influência, tornando a maior economia europeia energicamente dependente de si. Não só veem aprovadas as Nord Stream 1 e 2, mas conseguem recrutar o anterior chanceler da Alemanha para posições de topo nas duas maiores empresas energéticas estatais. E este não é de todo mal agradecido, sendo um dos maiores apologistas de Vladimir Putin. Em 2014, justificou a ocupação de territórios ucranianos como uma resposta aos “medos de ser cercado” do presidente russo e comparando-a à intervenção na Sérvia em 1999, por parte da NATO. Outros exemplos incluem a defesa da intervenção russa nas eleições da Ucrânia e a recusa em atribuir qualquer culpa do envenenamento de Alexei Navalny ao regime de Putin.

Ao mesmo tempo, Schröder aparenta ter uma amizade pessoal e duradoura com o líder russo, chegando a descrevê-lo como um “democrata sem falhas”. A sua condenação da invasão de fevereiro, publicada no LinkedIn, embora identificasse a Rússia como o agressor, não deixou de salientar os “vários erros – em ambos os lados”. Conforme relatado no website Politico, a 10 de março, Schröder encontra-se em Moscovo, procurando mediar um projeto de paz com Putin. A relação do ex-chanceler com o regime russo gerou uma nova expressão – “Schröderização” – que pode ser interpretada como a corrupção da elite política de outro país. Ou seja, no emprego, por Putin, de anteriores líderes europeus em cargos prestigiados em empresas estatais russas. Outros exemplos incluem François Fillon, antigo candidato presidencial francês e agora membro do conselho de diretores da SIBUR, Wolfgang Schüssel e Christian Kern, ex-chanceleres da Áustria respetivamente em lugares de topo na RZD e na Lukoil,  Matteo Renzi, ex-primeiro-ministro da Itália na Delimobil e Esko Aho, ex-primeiro-ministro da Finlândia no Sberbank, o maior banco russo. Destes, à data deste artigo, apenas Fillon se mantém no cargo, com os restantes a demitirem-se em sequência da invasão russa da Ucrânia.

RECOMEÇAR DO ZERO: CONSIDERAÇÕES EM TOM DE CONCLUSÃO

               É seguro dizer que a recente mudança de tom vinda de Berlim não estava nos planos de Olaf Scholz. Noah Barkin, no seu artigo para o The Atlantic, relembra que a campanha social-democrata assentava num projeto de continuidade com os mandatos de Merkel, com alusões ao legado da Ostpolitik deixado pelo SPD. Porém, a política ou mesmo a vida em geral tem a sua maneira de obrigar alguém a largar as suas preconceções e voltar à estaca zero. A Alemanha, nas palavras de Barkin, já não pode desempenhar o papel de “uma grande Suíça” nos dias de hoje, à medida que se vira a página da ordem internacional pós-Guerra Fria.

Esta nova posição vem em boa hora para a administração Biden, que considera a Alemanha essencial para a sua rede de alianças na Europa, assim como a França, que finalmente se veria livre de suportar nas suas costas o peso inteiro da defesa do continente. Escrevia Timothy Ogden, no New Europe em 2020, que um exército europeu era impossível já que as forças armadas alemãs se encontravam “cronicamente subfinanciadas” e com várias deficiências a nível logístico e táctico. Este descurar da defesa por parte da Alemanha foi descrito por Annegret Kramp-Karrenbauer, ministra da Defesa durante a era Merkel, como um “falhanço histórico”.

               Assumindo que a invasão da Ucrânia marca o início de uma nova era nas relações internacionais, urge abandonar alguns essencialismos históricos, como a noção de que uma Alemanha militarizada representa para a Europa. Nos dias de hoje, Berlim é uma pedra basilar da União Europeia e membro integrante da NATO, assim como grande parte da Europa de Leste. É verdade que as relações entre a Alemanha e esses países têm espaço para melhorar, mas, como sublinhado no artigo de Sudha David-Wilp e Thomas Kleine-Brockhoff na Foreign Affairs, tal implicará o envio de forças para a Lituânia, a Eslováquia e a Roménia. Isto é, uma Alemanha mais focada em honrar as suas responsabilidades para com a aliança defensiva que integra é vista com bons olhos pelos restantes membros.

               Talvez será cedo demais desenhar linhas de força para o governo alemão no futuro, contudo, no seu artigo para o site War on the Rocks, citado no início, Sophia Besch e Sarah Brockmeier apresentam as suas visões, salientando quatro grandes tarefas a cumprir: assegurar o apoio da opinião pública; contribuir abertamente para projetos de grand strategy tanto no seio da NATO como da UE; realizar uma reforma profunda na burocracia estatal e, por último, criar um Conselho de Segurança Nacional, de modo a que a política de segurança nacional seja capaz de responder aos complexos problemas por vir.

A antiga “terra de sangue”[5] que dantes se via encurralada entre Hitler e Stalin, hoje apenas reconhece um agressor: Vladimir Putin. Críticos da anterior política externa alemã durante anos alertaram para o que hoje parece redundante: o regime russo tem uma visão dos seus interesses completamente antagónica para com a noção de interdependência positiva defendida por Schröder, Merkel e Scholz. Nas palavras de Kristi Raik, diretora do Estonian Foreign Policy Institute no Centro Internacional de Defesa e Segurança de Tallinn, “não só é idealista, mas perigoso defender o contrário”.

ARTIGOS E PUBLICAÇÕES CITADAS:

Besch, S. & Brockmeier, S. (2022). Waking a Sleeping Giant: What’s Next for German Security Policy? War on the Rocks.

Meister, S. (2019). From Ostpolitik to EU-Russia Interdependence: Germany’s Perspective, in Raik, K. & Rácz, A. (org.). Post-Crimea Shift in EU-Russia Relations: From Fostering Interdependence to Managing Vulnerabilities. International Centre for Defence and Security, 25-45.

Umland, A. (2022). Germany’s Russia Policy in Light of the Ukraine Conflict: Interdependence Theory and Ostpolitik. Orbis, 66(1), 78-94.

de Haldevang, M. (2018). Putin’s relationship with Germany’s ex-leader has created a new word for corruption. Quartz.

Ogden, T. (2020). Why the Armed Forces of Europe isn’t possible. New Europe.

Barkin, N. (2022). Europe’s Sleeping Giant Awakens. The Atlantic.

Raik, K. (2021). New World Order: Germany’s Dangerous Idealism vis-à-vis Russia. Internationale Politik Quarterly.

Sudha, D-W. & Kleine-Brockhoff, T. (2022). A New Germany: How Putin’s Aggression Is Changing Berlin. Foreign Affairs.


[1] Umland, 2022

[2] Meister, 2019

[3] idem

[4] Agência de Cooperação dos Reguladores de Energia

[5] Expressão usada na obra do mesmo nome do historiador Timothy Snyder, para descrever a área da frente de Leste da II Guerra Mundial