O ópio no Afeganistão: causas, efeitos e a sua relação com o intervencionismo americano

Em 1979, a União Soviética invadiu o Afeganistão e, após 10 anos de resistência dos rebeldes Mujahedin, apoiados pelos EUA, foi derrotada. As acções da CIA contra a ocupação soviética ajudaram a transformar as fronteiras numa plataforma de comércio de heroína. Após o 11 de setembro de 2001, os Estados Unidos juntaram-se a vários aliados para derrubar os talibãs. Desde aí, a produção de ópio também disparou. Por um lado, os talibãs usaram a indústria como fonte de fundos e forma de ganhar a fidelidade do povo, contribuindo para o aumento do ópio. Por outro, as intervenções contínuas dos americanos também ajudaram no escalar do problema da droga e seus efeitos devastadores. Este artigo pretende explorar a relação entre as intervenções americanas e o aumento do ópio no Afeganistão, as suas potenciais causas e impactos sociais.

Alfred McCoy estabelece uma ordem cronológica, começando pelo final da década de 70 e início da de 90. Nos 10 anos seguintes à invasão soviética, a CIA forneceria aos mujahideen milhões de dólares em armas. Estes fundos e o ópio em expansão sustentariam a resistência afegã na luta pela retirada soviética. Assim, a guerra secreta da CIA contra a ocupação soviética contribuiu para que, na fronteira afegã com o Paquistão, se estabelecesse uma rede de laboratórios de heroína. John Glaze também faz referência ao alastramento de laboratórios em “Opium and Afghanistan: Reassessing U.S. Counternarcotics Strategy”, indicando que, geralmente, o processamento em heroína ocorria fora do país, porém, no final dos anos 90, aumentaram os laboratórios internos, especialmente no sul. O regime comunista do Afeganistão caíu em 1992, suscitando uma guerra civil entre as fações mujahedin. De 1992 a 1994, foram combinadas armas e ópio numa luta pelo poder do país. Mais tarde, em 1996, uma força Pashtun, os talibãs, tomaram Cabul, assumindo o controlo de grande parte do país em 1998. Um artigo do Geopolitical Monitor refere que milhares de militantes islâmicos foram treinados no Paquistão, entre 1986 e 1992, em campos supervisionados pela CIA e pelo MI6 britânico. No mesmo consta que, em 1995, o ISI paquistanês ajudou os talibãs na guerra civil afegã e que, tal como na guerra contra a URSS, procurou os serviços secretos sauditas para financiamento destes. Defende que a ascensão dos talibãs ao poder no Afeganistão foi apoiada pela CIA, que trabalhou com o ISI. Nesse sentido, cita um antigo membro do Governo Índiano, dizendo que o insucesso da luta contra a heroína deve-se ao facto da CIA ter encorajado os barões da droga durante a guerra afegã, a fim de espalhar a heroína entre os soviéticos, tal como o fez na busca pela Al-Qaeda. McCoy (2009)  frisa o facto do regime talibã ter incentivado o cultivo de ópio, oferecendo protecção ao comércio de exportação e cobrando os impostos enquanto esteve no poder. Até que, no seguimento de uma seca devastadora em 2000, proibíram o cultivo. Posto isto, pode depreender-se que os EUA estiveram presentes no início da disseminação da ópio (como evidencia a figura 1), havendo a possibilidade do seu apoio económico e material, ou a sua fraca e reduzida acção contra-narcóticos, ter ajudado a tornar o tráfico uma das ferramentas dos talibãs. De facto, o aumento do ópio não era uma prioridade para os EUA, como ilustra a afirmação de um antigo diretor da operação afegã da CIA, citada por McCoy (2009): “Não tínhamos os recursos nem o tempo para nos dedicarmos a uma investigação sobre o tráfico de droga. Acho que não precisamos de nos desculpar por isto. Houve precipitação em termos de drogas, sim. Mas o objectivo principal foi alcançado. Os soviéticos deixaram o Afeganistão”.

Figura 1 – Cultivo de papoilas de ópio no Afeganistão entre 1986 e 2006. Fonte: “Opium and Afghanistan: Reassessing U.S. Counternarcotics Strategy”.

Alfred McCoy (2009) também acentua que a cultura do ópio aumentou após o ano de 2001, aquando da invasão americana no Afeganistão, em consequência do 11 de Setembro. O autor explica como o regime talibã colapsou rapidamente, podendo a proibição do ópio ter contribuido para tal. Explica que, para capturar Cabul e outras cidades-chave, a CIA teve o apoio da Aliança do Norte e de um grupo Pashtun. Quando o conseguiram, a CIA cedeu o controlo às forças militares aliadas. Nos anos seguintes, os programas de supressão de drogas dessas últimas cederiam aos lucros da heroína. No ano de 2004, a CIA relacionou o aumento do tráfico de droga a um ressurgimento dos talibãs. Nesse sentido, o Secretário de Estado Colin Powell instou uma estratégia contra os narcóticos (incluindo o mesmo tipo de desfolhada aérea agressiva que depois é usada na Colômbia), mas o embaixador dos EUA no Afeganistão resistiu à mesma. A ONU também afirmou que os talibãs “começaram a extrair da droga os fundos para armas, logística e milícias”. Em 2008, Washington enviou mais tropas para o Afeganistão, bem como em 2016. Em 2017, foram enviados aviões para destruir laboratórios de heroína. A moralidade destas intervenções é questionável, já que, muitas vezes, ignoraram a gravidade das consequências devastadoras sobre as populações.  

As questões políticas podem permanecer ambíguas, mas é certo que, para além destas, outros factores foram decisivos para o boom do ópio. O Banco Mundial defende que este foi estimulado por um declínio da oferta no mercado mundial de outras fontes, pela procura de novos mercados, pela vantagem comparativa do Afeganistão e por situações decorrentes da guerra, como o colapso da governação e a pobreza rural. Relativamente a esta questão, Glaze (2007) refere que a elevada taxa de retorno do cultivo de papoilas incentivou uma alteração de culturas tradicionais para o ópio, frisando que a agricultura é o sustento de 70% dos afegãos e principal fonte de rendimento do país. O diparar do ópio provocou inúmeras consequências, das quais o Banco Mundial destaca as relacionadas com os impactos sociais e governativos. Ressalvando que os rendimentos do ópio são concentrados nos actores mais poderosos envolvidos no comércio, transformação e tráfico, indica que muitos pobres dependem do ópio, pois trata-se de uma atividade carente de mão de obra altamente intensiva, parte desta satisfeita pelo trabalho doméstico. Assim, a redução dos preços do ópio (sem outros meios de subsistência) agravam a pobreza rural.

O aumento do consumo poderá estar relacionado com o elevado desemprego, as agitações sociais originadas pela guerra e o regresso dos refugiados do Irão e do Paquistão, que lá se tornaram viciados e que viciaram familiares, incluindo crianças. Estimativas da ONU indicam que cerca de 3% das mulheres eram toxicodependentes em 2009, um número que pode considerar-se baixo, pois o vício pode ser ocultado por vergonha, não esquecendo o contexto religioso que proíbe o uso dessas substâncias. Em 2015 subiu para 9,5%. No mesmo ano, a ONU aponta que 9,2% das crianças até aos 14 anos eram positivas a, pelo menos, um tipo de droga. Felizmente, existem centros de tratamento por todo o Afeganistão, mas a maioria são pequenos, mal equipados e subfinanciados. No documentário Afghanistan’s Child Drug Addicts, é escrutinada a questão da dependência infantil e as suas causas, como a instabilidade mental causada pela guerra; os milhões de feridos e portadores de incapacidades (desde a perda de membros ao stress pós-traumático, que levam ao uso da droga como forma de lidar com o sofrimento entre famílias mais desfavorecidas, que não conseguem comprar medicamentos); o facto do ópio ser mais barato do que medicamentos, para além de que também basta menor quantidade para fazer efeito. Para além disso, algumas famílias chegam a utilizar o ópio para reduzir o apetite, pois não têm alimentos suficientes e estes são mais caros. As vivências documentadas tornam claras as consequências políticas e sociais, bem como o ciclo vicioso que toda a situação afigura.

Em conclusão, é difícil definir a dimensão do papel dos EUA no aumento do ópio no Afeganistão, mas pode dizer-se que a sua presença coexiste, de facto, com a linha temporal em que se deu o boom desta substância. Intervenções agressivas não são, de todo, a melhor estratégia anti-drogas, pois acabam por não considerar a possibilidade de efeitos colaterais que, por sua vez, podem potenciar o uso de drogas, como vimos pelos exemplos dados. Sendo o Afeganistão maioritariamente islâmico, é perceptível que a cultura tem bastante peso na identificação precoce de dependentes e no seu tratamento, pois a questão da religião condenar o uso de drogas leva à ideia de que os centros permitem comportamentos aditivos, o que alimenta a descredibilização destes e a falta de apoio do governo. Ao investir nos centros de reabilitação e tratamento, há a possibilidade da população reabilitada poder contribuir de forma postiva e de abalar este ciclo vicioso, em que as soluções (intervenções) acabam por provocar situações que tornam os indivíduos mais susceptíveis de ser  dependentes do ópio. Também é preciso investir na agricultura, nem que seja uma pequena parte do financiamento militar, a fim de produzir mais opções para os agricultores que dependem da cultura do ópio. Como sugere McCoy (2009), “pomares poderiam ser reconstruídos, rebanhos repovoados, stocks de sementes e sistemas de irrigação reparados”.

Referências Bibliográficas:

  • Chelala, C., 2013. Afghanistan’s legacy of child opium addiction. [online] The Japan Times. Disponível  em: <https://www.japantimes.co.jp/opinion/2013/03/01/commentary/world-commentary/afghanistans-legacy-of-child-opium-addiction/> [Acedido a 9 de Fevereiro de 2021].
  • Glaze, J., 2007. Opium and Afghanistan: Reassessing U.S. Counternarcotics Strategy. [online] Disponível  em: <https://www.files.ethz.ch/isn/46869/1007_OpiumAfghan.pdf> [Acedido a 9 de Fevereiro de 2021].
  • Hadid, D. and Ghani, K., 2019. Women and Children Are The Emerging Face Of Drug Addiction In Afghanistan. [online] NPR. Disponível  em: <https://www.npr.org/sections/goatsandsoda/2019/10/29/771374889/women-and-children-are-the-emerging-face-of-drug-addiction-in-afghanistan> [Acedido a 9 de Fevereiro de 2021].
  • Marshall, A., 2008. Afghan Heroin & the CIA. [online] Geopolitical Monitor. Disponível  em: <https://www.geopoliticalmonitor.com/afghan-heroin-the-cia-519/> [Acedido a 9 de Fevereiro de 2021].
  • McCoy, A., 2009. How the heroin trade explains the US-UK failure in Afghanistan. [online] The Guardian. Disponível  em: <https://www.theguardian.com/news/2018/jan/09/how-the-heroin-trade-explains-the-us-uk-failure-in-afghanistan> [Acedido a 9 de Fevereiro de 2021].
  • Unreported World: Afghanistan’s Child Drug Addicts. 2010. [film] Apresentado por R. Navai. UK: Channel 4.
  • Ward, C. and Byrd, W., 2004. Afghanistan’s Opium Drug Economy. [ebook] Washington D.C.: World Bank. Disponível  em: <http://documents1.worldbank.org/curated/en/158651468767124612/pdf/311490PAPER0AF100SASPR0no051Dec0171.pdf> [Acedido a 9 de Fevereiro de 2021].

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