Manufacturing Consent no Séc. XXI: os MSM e a Política Externa dos EUA

“Porque é que um cão abana a sua cauda? Porque o cão é mais inteligente que a sua cauda. Se a cauda fosse mais inteligente, a cauda abanaria o cão”. (Wag The Dog)

Manufacturing Consent: The Political Economy of the Mass Media, por Edward S. Herman e Noam Chomsky, publicado pela primeira vez em 1988, é um livro sobre o papel dos mass media, ou mainstream media (MSM) na percepção pública da política externa dos EUA. Os seus autores exploram as principais características daquilo que definem como um “modelo de propaganda” [1] próprio de uma democracia liberal sujeita às forças do mercado livre e de grupos de interesse, em contraste com o clássico modelo de propaganda controlado por Estados de governos autoritários. O livro reflecte influências das filosofias marxista e anarquista, tanto pelo seu cepticismo em relação às principais instituições dos EUA, como por apontar problemas estruturais a uma sociedade permeada por uma ideologia e sistema político e económico a que se opõem – o neoliberalismo e o capitalismo. Independentemente da ideologia do seu leitor, esta é uma obra seminal para o entendimento do inequívoco peso dos media no funcionamento e manutenção de sociedades democráticas.

Chomsky e Herman defendem que há uma forte ligação entre a concentração de poder no sector privado, em “impérios corporativos transnacionais” que possuem os maiores canais de comunicação, e o Governo, instituições financeiras e grupos de interesse. Nesse sentido, identificam 5 “filtros de distorção editorial” na economia política dos MSM: o tamanho das organizações dominantes, a sua quantidade e a sua natural inclinação para a maximização de lucro; os anúncios como fonte principal de receita; o acesso privilegiado a fontes de informação ligadas ao Governo; a autocensura e o efeito “echo chamber”; anticomunismo/guerra ao terrorismo, inimigos comuns. A influência destes filtros será resumidamente examinada neste artigo, que se focará no “efeito CNN” na política externa dos EUA, no decorrer de um contexto de exponencial complexificação das tecnologias de informação, nomeadamente da internet, de 1988 a 2020. Essa análise terá como base a cobertura noticiosa das intervenções militares no Iraque (2003) e na Líbia (2011).

No caso do Iraque, após o ataque terrorista de 11 de Setembro de 2001, a cobertura acrítica da política externa do Governo pelos MSM fomentou uma maior aceitação da participação na guerra. Em 2003, Robert S. Muller, director do FBI entre 2001 e 2013 e responsável pela investigação à interferência russa na eleição presidencial de 2016, declarou ao Comité de Inteligência do Senado que havia provas da posse de armas de destruição maciça por Saddam Hussein, o que se descobriria mais tarde ser falso, tal como a legalidade do programa de vigilância da NSA, em 2013. Susan Rice, embaixadora das Nações Unidas e Conselheira de Segurança Nacional dos EUA na posterior administração de Barack Obama, também apoiou a intervenção, que seria aprovada por votação no Senado, com votos a favor de Hillary Clinton e Joe Biden. Durante a mesma, os MSM cobriram os acontecimentos no terreno, com a condição de só o fazerem integrados (embedded) no exército americano, seguindo um protocolo. Além disso, a percepção dos espectadores do derrube de uma estátua de Hussein exemplificou a criação de um momento simbólico que foi descontextualizado na sua apresentação. Por outro lado, a Al Jazeera tornou-se no principal canal de informação crítico da intervenção, destoando da “câmara de ressonância” (echo chamber) dos media americanos – o documentário Control Room explora detalhadamente esse tema.

À semelhança, no caso da intervenção da NATO na Líbia, justificada com a necessidade de travar ataques militares a civis que se manifestavam pacificamente contra o Governo por Muammar al-Gaddafi e a consequente possibilidade de destabilização da região, a cobertura mediática dos EUA apoiou uma intervenção limitada que excluía uma então menos popular colocação de tropas americanas no terreno. Após a captura e morte do líder líbio às mãos de rebeldes islâmicos apoiados pela coligação internacional, transmitida pelos MSM, a então Secretária de Estado Hillary Clinton comentou: “nós viemos, nós vimos, ele morreu”. Hoje, escasseia a cobertura mediática de um país politicamente fracturado e em contínua Guerra Civil, onde surgiram mercados de escravos e grupos terroristas como o ISIS se propagaram, à semelhança do que se passou no Iraque; além de ter sofrido uma queda no PIB e no ranking do IDH desde então. Com isto, pode concluir-se que, contrariando as expectativas positivas dos MSM, da intervenção que Barack Obama concluiu ser o seu “pior erro” e que marcou a primeira vez que o Conselho de Segurança das Nações Unidas determinou explicitamente o uso da força contra um Estado para prevenir uma atrocidade iminente, resultou um período de profunda destabilização e instabilidade política na Líbia.

Relativamente ao papel das relações públicas na intervenção da NATO na Líbia, para Riley [2] (2015, p 36): “A pesquisa de Alan Kuperman e John Gentry, ambos renomados estudiosos das políticas e normas de intervenção, sugere que as acusações de atrocidades com destaque para as vítimas civis têm sido comumente utilizados por actores não-estatais para estimular a intervenção militar“. Riley (2015, p 37) identifica 5 categorias de evidências que são incongruentes com a narrativa convencional atribuída à intervenção na Líbia: “(1) os protestos não foram espontâneos e tiveram forte influência islâmica; (2) os protestos foram inicialmente violentos; (3) a taxa real de vítimas foi significativamente menor do que a inicialmente relatada; (4) uma alta proporção de vítimas de homens para mulheres/crianças sugere que a maioria das vítimas foram causadas por combates, não atrocidades cometidas pelo regime; e (5) o regime usou medidas de controle de distúrbios menos letais, mesmo depois da revolta se ter tornado violenta”. Já para Lieffers [3] (2014, p 47): “De facto, o trabalho conceptual nas relações públicas ilumina as formas em como as instituições internacionais e os seus profissionais de comunicação actuam como correctores culturais para envolver múltiplos públicos e moldar o debate público”.

Sobre o efeito dos media nas opiniões políticas do público, segundo Dimaggio [5] (2009, p 77): “ (…) a negação sistemática de interpretações alternativas para os motivos americanos constitui um sério impedimento aos esforços para alcançar relatórios mais equilibrados e debate público informado”.

Numa mais recente actualização dos conceitos explanados na teoria de Chomsky e Herman, Attkisson [4] escreveu sobre alguns dos problemas enfrentados por repórteres durante as administrações de Obama e Trump (2008 a 2020). No caso do segundo presidente, Attkisson defende que a cobertura dos MSM passou a ser distintamente mais crítica do Governo comparativamente com o seu antecessor, com excepção de algumas das suas acções militares, enquanto o tema da propagação de “fake news” passou a destacar-se na esfera mediática e académica. A falta de isenção na conduta jornalística passou a ser acompanhada por uma azafama de rumores propagados em redes sociais e meios noticiosos independentes que não estão sujeitos ao mesmo controlo editorial. A necessidade de maior velocidade nas publicações devido à competição comercial com os novos meios de comunicação digitais tornou a economia política dos MSM menos criteriosa, ao mesmo tempo que a alternativa de jornalismo independente é acusada de contribuir para a “desinformação” (disinformation) do público e propagação de informações falsas (misinformation).

Concluindo, perante a recente discussão no Senado dos EUA sobre o tamanho e influência das empresas que dominam o discurso na internet (Google, Facebook, Twitter), que pelo seu alcance global podem ser considerados actores no Sistema Internacional, estas podem sofrer limitações com as leis Antitrust (anti-monopólio). Por motivos distintos, Republicanos e Democratas desconfiam das repercussões da influência dos Big Tech no discurso público, reforçados pela monopolização do importante mercado digital. Tendo em conta que o número de organizações responsáveis pelas notícias nos EUA diminuiu, de 50 corporações em 1988 para 6 em 2020, o acesso a informação independente e sem os referidos filtros de Chomsky e Herman aparentam ser ainda mais relevantes. Não obstante a dificuldade na selecção de informação, a internet foi uma das invenções mais influentes na disseminação internacional de ideais democráticos, além de ter reforçado um acesso cada vez menos controlado por autoridades a informações políticas e facilitado a partilha de conhecimento entre cidadãos.


[1] Chomsky, Noam; Herman, Edward. (2002). Manufacturing Consent: The Political Economy of the Mass Media. New York: Pantheon Book.

[2] Riley, William S. (2015). Deceived to Intervene: Non-State Actors’ Use of Deception to Elicit Western Intervention in Libya in 2011. American Intelligence Journal, Volume 32, Number 2. Cullen: National Military Intelligence Association.

[3] Lieffers, Emily. (2014). “We answered the call”: Strategic Narrative in NATO’s Public Diplomacy for Operation Unified Protector. Ottawa: Carlton University.

[4] Attkisson, Sharryl (2020). Slanted: How the News Media Taught Us to Love Censorship and Hate Journalism. New York: HarperCollins Publishers.

[5] Dimaggio, Anthony R. (2009). Mass Media, Mass Propaganda. Lanham: Lexington Books.

Faça o primeiro comentário a "Manufacturing Consent no Séc. XXI: os MSM e a Política Externa dos EUA"

Comentar

O seu endereço de email não será publicado.


*