Ásia Central: A Stronghold da Política Externa Russa, Parte II

Este artigo é a continuação de Ásia Central: A Stronghold da Política Externa Russa, Parte I, publicado a 24 de Setembro

Houve, concomitantemente, uma necessidade de a Rússia adaptar os seus interesses e prioridades na região. De facto, o processo de reafirmação dos interesses russos evidenciou, numa fase inicial, uma natureza reativa aos acontecimentos no terreno (por exemplo, à guerra civil no Tajiquistão ou à presença crescente das companhias energéticas ocidentais no Cáspio). Com a chegada de Putin ao Kremlin, os objetivos russos tornaram-se mais assertivos, materializados na institucionalização da cooperação económica e de segurança através da criação da Comunidade Económica Eurasiática (CEEA), em 2015, ou do Tratado de Segurança Coletiva (TSC), em 1992, ao passo que o investimento nos recursos energéticos se adequou à estratégia russa de transformar a Rússia na principal potência energética da Eurásia.

Em 2001, um ano após Putin se tornar presidente, despoleta uma nova dinâmica que irá colocar a Ásia Central no topo da agenda internacional. Após os acontecimentos de 11 setembro de 2001 e tendo em conta a Operação Liberdade Duradoura no Afeganistão, os EUA, num contexto de luta contra o terrorismo, apresentavam-se disponíveis para atuar militarmente naquela região. A Rússia, neste contexto, afirmou o seu compromisso em dar assistência aos esforços de guerra das potências ocidentais e partilhava com elas um interesse genuíno em travar o islamismo radical no seu “estrangeiro próximo” e em limitar o impacto
pernicioso que o tráfico ilícito de drogas tem na sua própria sociedade. No entanto, este foi um dos maiores desafios para a política externa russa que, até então, mantinha o monopólio militar naquela região. Face aos processos de crescente interdependência global e à sua sobreposição às dinâmicas de competição hegemónica nesta região, a segurança da Ásia Central tornou-se objeto de disputa. Nos anos seguintes, países como o Uzbequistão, Turcomenistão e o Quirguistão, devido à sua proximidade com o Afeganistão, serviram e/ou forneceram bases para trânsito de tropas norte-americanas. A importância estratégica desta zona geográfica aumentou exponencialmente para os EUA após estes eventos e, em 2009, para acomodar a necessidade de suprimentos não letais para o Afeganistão, e para reduzir a sua dependência de linhas de abastecimentos através do Paquistão, os EUA abriram a Rede de Distribuição do Norte, um conjunto de arranjos logísticos de base comercial que conectavam os portos do Báltico e do Cáspio com o Afeganistão via Rússia e Ásia Central . O aumento acentuado da presença americana na região, em conexão com a operação afegã (base militar do Quirguistão e desde 2005 também no Uzbequistão), representaram um desafio sério para os interesses russos na região. Posteriormente, durante o mandato do presidente Obama, houve uma retirada gradual da tropas da OTAN e dos EUA estacionadas naquela região, assim como o fim da operação no Afeganistão. Os EUA, hodiernamente, não representam a maior ameaça aos interesses russos na região, dado que Washigton é acusado várias vezes de ter uma visão pragmática sobre a região, sem definir interesses concretos.

Por outro lado, a presença russa, particularmente desde os eventos em Andijan, em 2005, no Uzbequistão-a 13 de maio de 2005, um protesto juntou cerca de 10 000 pessoas em Andijan, no Vale de Fergana, em resposta ao julgamento de 23 empresários locais, acusados pelo regime de Islam Karimov de serem extremistas islâmicos ligados à organização Hizb ut-Tahrir. As tropas uzbeques abriram fogo sobre os manifestantes, matando centenas de pessoas-, tem vindo a ser reforçada, através de um processo de reafirmação regional, incluindo uma gradual revisão das estruturas de cooperação lideradas pela Rússia, fazendo uso do seu significativo orçamento. Ademais, após estes eventos, a influência russa consolidou-se junto dos líderes regionais, devido ao apoio político que Moscovo proporcionava e pelo facto de a Rússia apelar ao princípio da não ingerência nas questões internas dos Estados. Os EUA e a União Europeia, por seu turno, impuseram sanções ao regime de Tasquente, incluindo o fim do uso da base aérea uzbeque de Khanabad, a partir de 2005.

Segundo Leonid Gusev, a presença russa na região é significativa, e está destinada a crescer. Ele demarca que a política externa russa tem três grandes objetivos para a Ásia Central. O primeiro é promover a segurança e cooperação técnico-militar (desde a modernização das forças armadas dos Estados da região à construção de bases militares no Quirguistão e no Tajiquistão). O segundo é a facilitação de projetos no setor energético, mais concretamente no setor de petróleo e gás natural e energia hidroelétrica. Por fim, o terceiro é o fortalecimento de instituições de integração da União Económica Eurasiática, da qual o Cazaquistão e o Quirguistão são membros plenos e o Tajiquistão é um membro potencial. Para além do “hard power” russo, claramente presente na região, a Rússia tem ainda uma forte influência ao nível do “soft power”. Os media russos, assim como os filmes, os espétaculos teatrais, entre outros, são muito populares na região. A Rússia é encarada com um exemplo e estes Estados tendem a adotar legislações semelhantes às da Rússia, como por exemplo no que concerne ao combate ao terrorismo.

Todavia, ao mesmo tempo que a presença dos EUA na Ásia Central é cada vez menos expresiva, surgem outros atores com interesses na região, e que poderão ultimar a hegemonia russa: a China. A China tem mantido uma postura cautelosa, e as iniciativas têm-se concretizado apenas no plano económico, já que no plano securitário a Rússia tem maior atuação. Pequim tem uma ampla visão de conectividade relativamente à região, e tem feito investimentos comerciais e empréstimos sem qualquer imposição de reforma ao nível político. Com a Belt and Road Initiative, espera-se que a China expanda a sua influência na região, à medida que tentará acautelar os interesses russos na região. A emergência deste país como ator dominante nos setores da energia e das infraestruturas, assim como a sua presença como o credor preferido para a Ásia Central, tem profundas consequências políticas que deveriam preocupar Moscovo. Há 10 anos atrás, esta região sem litoral dependia da Rússia para exportar os seus bens e recursos naturais para os mercados internacionais, o que deu a Moscovo uma vantagem no que toca a manter a sua esfera de influência. Contudo, desde 2007, a China tem vindo a quebrar este monopólio de Moscovo, através da construção de pipelines que ligam a Ásia Central à China. Com Washigton com pouca presença na região, a Rússia terá de se preocupar em assegurar a influência que ainda detêm perante os líderes políticos regionais, e em conter a ascensão chinesa na região, embora tal seja visto pela maioria dos analistas como algo inevitável no longo prazo.

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