A Transição Económica da China, parte II

Este artigo é a continuação de A Transição Económica da China, publicado a 20 de Agosto.

É durante o mandato Nixon que os EUA decidem abordar a China, após as relações tensas que se verificaram desde a instauração da República Popular da China em 1949, e sobretudo com a Guerra da Coreia. Nixon estaria à procura de soluções para a crise económica que seguira os Oil Shocks e o fim do sistema monetário de Bretton Woods. Apesar da saída controversa de Nixon, o caminho estava traçado – Deng Xiaoping inicia a sua emergência como líder da China em finais de 70, e com ele a política de Reforma e Abertura.

Apesar do fim da conversibilidade Dólar-ouro, as linhas mestras do sistema de Bretton Woods, de um modo geral, não colapsaram, e o regime de livre-comércio manteve-se inscrito na ordem internacional do último terço do século XX. Esta fase, que também conhecemos pela emergência de bolhas financeiras, ficou marcada por vagas de crescimento em economias vistas como periféricas, que entrou em velocidade de cruzeiro desde os anos 90. Este processo é visto por autores como Hans Rosling como conducente a grandes avanços na condição humana, sobretudo em países não desenvolvidos, embora haja a admissão por economistas como Paul Krugman, que sempre foram defensores acérrimos da globalização como um mecanismo de ganhos absolutos, que as consequências da mesma, sobretudo para a classe média nos países desenvolvidos, tenham sido nefastas, acima das próprias espectativas.

No entanto, é inescapável que estes desenvolvimentos assentam numa contradição. A deslocação do emprego para fora dos países desenvolvidos, resulta logicamente em ganhos de prosperidade nos países destino, sobretudo nos estratos populacionais menos qualificados, que passam a ter alternativas à agricultura de subsistência, efeito que, talvez resultado da própria magnitude do país, seja notório na China, e anunciava assim a sua ascensão económica. É necessário reconhecer, porém, que seria difícil a prazo a manutenção das condições que favoreceram a deslocação do emprego, já que a própria natureza do sistema monetário leva a que excedentes comerciais se traduzam em valorizações monetárias, retirando a competitividade exportadora que era condição essencial. A ocorrência de tal paradoxo foi apelidada de middle-income trap, situação em que países em desenvolvimento ficariam impossibilitados de manter as suas taxas de crescimento, precisamente pela perda da competitividade.

Sobre esta questão, torna-se também óbvio que a manutenção da competitividade exportadora entra directamente em conflito com a directiva de criar uma economia de consumo, pois sabemos que a propensão para consumir é uma função directa dos rendimentos disponíveis, mediada pela propensão para a poupança, se olharmos no agregado, visto que a mesma difere entre escalões de rendimentos, algo que a lei de utilidade marginal explica de forma bastante elegante. À medida que os rendimentos sobem, também a propensão para a poupança, o que, pode ser vantajoso ou não consoante o factor limitante numa dada economia, como argumentam autores como Michael Pettis. Numa fase inicial, é necessária concentração de riqueza e geração de poupanças, para que se possa mobilizar capital para investimento em infraestrutura essencial ao desenvolvimento. Passada esta fase inicial, é necessária redistribuição de riqueza para que a grande massa populacional possa ascender na capacidade de consumo e assim criar uma economia sustentável a longo prazo, dentro destes moldes. Não se verificando este último passo na economia chinesa, é necessário mergulhar novamente mais a fundo.

O factor investimento ainda é o elemento predominante no PIB da China, o que levanta questões sobre a eficácia do mesmo. Também Pettis nos relembra que uma economia inundada de capital que não consegue encontrar alocação produtiva não é uma vantagem, pois em primeiro lugar, isso coloca entraves à sustentabilidade visto que os retornos não superam os custos do capital (juros), bem como o facto de que certas classes de activos tendem para a inflacção, numa relação directa oferta-procura, já que há muito capital à procura de poucos investimentos, como no exemplo histórico da Alemanha no seguimento da derrota da França de Napoleão III, da qual extraiu concessões financeiras sob a forma de transferências directas em valor monetário. Esta inflacção leva a uma inflexibilidade da economia, inibindo a iniciativa por tornar proibitivos os custos de investimento. É discutível até que ponto a China ainda carece de investimento para concretizar o seu objectivo, mas a sua capacidade industrial e o facto de que continua a ser um destino atractivo para uma empresa basear a sua produção, não obstante o facto de os salários já não serem tão reduzidos e haver outras economias vizinhas mais competitivas neste aspecto, bem como as questões geopolíticas emergentes e as condições impostas pelo governo ao IDE, diz-nos que em larga medida, este imperativo estará satisfeito.

Dos mecanismos que a economia chinesa encontrou para manter o status quo, percebemos que existe um mecanismo cambial em que o Yuan é trocado por moeda estrangeira, mantendo a sua valorização relativa e assim a vantagem competitiva da indústria exportadora chinesa. Porém, este é um dos factores que reduz a capacidade de consumo da grande massa trabalhadora da China, confinada a uma situação de salários fixos, e cujo poder de compra se mantém, por conseguinte, estagnado. A desvalorização da moeda constitui, na prática e grosso modo, uma transferência de riqueza do trabalhador assalariado para o dono dos meios de produção, e este facto associado à própria natureza do sistema político da China, onde a actividade económica passa sempre de alguma forma pela classe política, leva-nos a crer que essa mesma classe política terá precisamente incentivos para manter essa situação, pois beneficia directamente com essa transferência de riqueza. Também por esse motivo, a acumulação de divisas tem levado ao crescimento da influência chinesa no estrangeiro, para onde canaliza largos volumes de capital resultantes da sua actividade comercial, o que é conducente a ganhos geopolíticos.

Há autores que afirmam que uma maior intervenção do governo chinês, sobretudo na área da redistribuição de riqueza, não só teria impacto na proporção do consumo do PIB, como seria um pivot fundamental para alterar o posicionamento de Pequim no palco internacional, conduzindo mais marcadamente a relações de benefício mútuo. A tendência da globalização desde 2008 tem sido de reverter os avanços das décadas anteriores, sendo que esta desglobalização tem um teor particular – a centralização dos fluxos comerciais na China. Esta tendência não diminuiu com a pandemia, e a mobilização por parte do governo chinês parece ser orientada para reformas do lado da oferta, o que vai directamente contra a transição para uma economia de consumo.  Com esta informação, é-nos difícil vislumbrar, dada a aparente falta de vontade política em contrário, que a situação se altere sem que seja por um ajuste económico forçado.

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