O Realinhamento Geopolítico no Médio Oriente

O Médio Oriente é a região mais conturbada e militarizada do mundo. É uma área geográfica que se estende desde o leste do Mediterrâneo até ao Golfo Pérsico. Berço de várias civilizações e das três maiores religiões monoteístas- o islamismo, o judaísmo e o cristianismo-, este espaço geográfico revela-se fulcral para a estabilidade e segurança internacional. A abundância de recursos energéticos, nomeadamente de gás natural e petróleo, é primordial para a imperturbabilidade da economia mundial, e torna este espaço uma zona de confluência de interesses por parte de várias potências estrangeiras, nomeadamente os Estados Unidos da América (EUA) e a Rússia.

Esta zona geográfica particulariza-se por ter os maiores indícios de autoritarismo do mundo, tendo-se intensificado após a “Primavera Árabe” Immanuel Kant escreveu no século XVIII a “Paz Perpétua”, na qual ele referia que a paz internacional e a democracia estavam intimamente relacionadas. Ele fundamentava que as Repúblicas (atualmente designadas por democracias liberais), seriam as formas de Estado menos suscetíveis à conflitualidade. No caso do Médio Oriente, talvez nunca saberemos, visto que a democracia liberal não se difundiu nesta região e a mesma tem permanecido um hotspot de hostilidade e tensões geopolíticas.

A criação do Estado de Israel, em 1948, após a Segunda Guerra Mundial, alterou a paisagem política desta região. A Liga Árabe, principalmente os membros do Golfo Pérsico, sempre mantiveram uma postura rígida relativamente  ao reconhecimento de Israel. Esta posição solidificou-se quando, no final da Guerra dos Seis Dias de 1967, a Liga Árabe publicou a resolução de Cartum, que afirmava que os seus membros se recusavam a conceber a paz com o Israel, ou mesmo a reconhecer este Estado ou negociar com ele.

Tradicionalmente, e tendo em conta os eventos que se seguiram após o 11 de Setembro de 2001, como a “war on terror” ou a invasão do Afeganistão, os EUA mantiveram uma posição vigorosa no Médio Oriente, dominando a região e formando alianças estratégicas com vários países. Ao analisar este xadrez geopolítico, verificamos que os Estados Unidos se aliavam a Israel, fornecendo-lhes equipamento militar e ajuda económica, vitais para a sobrevivência deste Estado cujo tamanho é diminuto quando comparado com outros Estados da região. Os EUA aliavam- se ainda à Arábia Saudita e a outros Estados do Golfo Pérsico de maioria sunita (considerada  a maior corrente do Islão, seguida por mais de 80% dos cerca de 1,5 mil milhões de crentes) e árabe. Estes três países tinham um inimigo comum -o Irão-, de maioria xiita e persa. Por outro lado, a Arábia Saudita e o Irão, apesar de inimigos e de serem ambos países com maiorias religiosas que se opõem, têm em comum a desconfiança para com Israel. A causa palestiniana, neste xadrez, era assegurada pela Liga Árabe e pelos restantes Estados Árabes, materializada na Organização para a Libertação da Palestina (OLP). A Rússia, neste contexto, tinha como principal aliado o Irão e a Síria, e também mantinha uma presença intensa na região.

Recentemente, verificamos que este cenário se tem vindo a alterar significativamente, com os EUA a abandonar progressivamente a sua influência na região, algo que embora alguns analistas afirmem ser fruto da  política nacionalista de Donald Trump, se deve principalmente à descoberta do gás de xisto e ao facto de os EUA se terem tornado autossuficientes a nível energético, estando neste momento a proceder à exportação deste recurso e com planos para criar redes de abastecimento para a Europa. Por outro lado, a Rússia tem vindo a reforçar a sua posição no Médio Oriente, sobretudo após a guerra da Síria e a permanência de Bashar al-Assad no poder e através do fomento da sua relação com o Irão. A nível regional, as mudanças foram também expressivas, com o aproximar de alguns Estados Árabes a Israel, nomeadamente os Emirados Árabes Unidos, um Estado monárquico constituído por 7 Estados dos quais Abu Dhabi é a capital. 

Estes dois Estados alcançaram um acordo no dia 13 de Agosto, mediado pelos EUA, para a normalização das relações diplomáticas, sendo referido no acordo a suspensão da anexação por parte de Israel do Vale do Jordão. Ainda antes da formalização do acordo, já existiam suspeitas que ambos os países tinham iniciado o normalizar das relações diplomáticas, através da partilha de inteligência e venda de armas para fomentar grupos anti-Irão e na sua luta contra organizações terroristas. Este acordo oferece vantagens significativas para os três Estados envolvidos: a necessidade histórica de Israel aumentar o reconhecimento regional do Estado judeu, assim como a necessidade de o presidente Netanyahu desviar as atenções da situação na qual se encontra-a ser julgado por corrupção; o facto de os centros financeiros dos Emirados poderem beneficiar de ligações com a potência cibernética e de segurança da região; e o presidente dos EUA, neste momento sob pressão devido à gestão da crise pandémica e do aproximar das eleições norte-americanas, poderá apregoar o seu papel de agente pacificador no Médio Oriente. Porém, talvez o aspeto mais importante deste acordo se relacione com o facto de o mesmo marginalizar a causa palestiniana. Os palestinianos referem que este acordo quebra anos de solidariedade árabe-e influência- contra a ocupação de terras que eles consideram essenciais para a criação de um futuro Estado. A decisão de normalizar as relações com Israel opõe-se à visão da Liga Árabe, que é a de apoiar a designada  iniciativa paz árabe. O plano de 2002 afirma que os governos árabes estabeleceriam relações diplomáticas com Israel apenas se o mesmo se retirasse dos territórios ocupados e aceitasse o estabelecimento de um Estado palestiniano. Entre as causas para que os Emirados tenham procedido desta forma apontam-se a ascensão regional do Irão e os atritos dentro do Conselho de Cooperação do Golfo com o Qatar.

No seguimento deste acordo, foi realizado o primeiro voo direto de Israel para os EAU, e o voo teve permissão para cruzar o espaço aéreo saudita, normalmente bloqueado ao tráfego aéreo israelita. Há, ainda, outros avanços no retomar das relações entre estes países, mais concretamente o plano que ambos têm para estabelecer uma base de espionagem na ilha iemenita de Socotra, de acordo com um relatório do Jforum, os sites oficiais da comunidade judaica e de língua francesa. Esta ilha localiza-se numa posição estratégica no Mar da Arábia, a cerca de 350 quilómetros a sul do Iémen, e o seu objetivo seria coletar inteligência em toda a região. O relatório alegou ainda que os centros de vigilância de Tel Aviv monitoram as ações dos militantes Houthis no Iémen e os movimentos iranianos na região, além de examinar o tráfego aéreo e marítimo na região sul do Mar Vermelho.

Por forma a tentar encorajar outros Estados do Golfo Pérsico a seguir o mesmo curso que os EAU, o conselheiro sénior da Casa Branca, Jared Kushner, assim como outros altos funcionários do governo dos EUA encontram-se a visitar vários países no Médio Oriente. Após o tratado de paz entre o Egito e Israel, em 1979, e o da Jordânia, os EAU são o terceiro país árabe a normalizar relações com Israel. É, contudo, o primeiro dos seis Estados árabes do Golfo Pérsico a fazê-lo. Embora se tenha especulado inicialmente que o Bahrein e o Sudão poderiam seguir o exemplo dos Emirados, ambos os países rejeitaram tais alegações. Esta visita serve ainda um segundo propósito, o de convencer alguns Estados daquela zona a participarem numa cerimónia de assinatura em Washington entre autoridades israelitas e dos Emirados Árabes Unidos, que se espera servir para promover as conquistas diplomáticas da administração de Donald Trump no Médio Oriente, numa tentativa de ganhar apoiantes para as presidenciais de Novembro. Resta, neste puzzle, saber em que peça encaixará a causa palestiniana e que via tomarão os restantes Estados árabes, naquela que se avizinha como uma região cada vez mais turbulenta e complexa. 

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