Ibn Khaldun, ciclos civilizacionais e uma perspectiva da ciência

Existe um grande debate dito “civilizacional” que se tem vindo a desenrolar nas últimas décadas, com várias vozes a emergir nos discursos que têm pautado os media e a produção de conhecimento a nível internacional. As noções identitárias da sociedade, como são tradicionalmente conceptualizadas sobre linhas de nação, revelam a insuficiência da conflitualidade anunciada, sobretudo desde os anos 90, porque notoriamente, a noção de si com base no contraste com o outro, deixou por responder a pergunta essencial – afinal, os movimentos de política identitária que se têm feito notar, não são mais do que um sintoma de um profundo vazio societal, que o estado e a socialização forçada pela educação em massa não consegue colmatar. Benjamin Anderson teria razão quando falava de “comunidades imaginadas”, sobre a emergência do nacionalismo.

No contexto das vozes que anunciavam o conflito, Samuel Huntington respondeu à tese do “Fim da História” de Francis Fukuyama (já esta problemática por diversos motivos, que não pretendemos abordar aqui) com o “Clash das Civilizações”. Nesta curiosa abstracção, o mundo estaria dividido em várias secções, cujas identidades distintas levariam ao conflito em zonas intermédias, ou seja, nos pontos em que estas identidades se cruzam. Produto talvez do conflito na ex-Jugoslávia, e da frequente tendência humana de pegar num evento isolado e daí derivar conclusões universais, as divisões propostas surpreendem-nos pela gritante simplicidade, que em última análise não é mais do que reducionismo, e cujo poder explicativo só circunstancialmente produz conclusões que coincidem com a realidade. É estranho pensar o cientificismo que se atribui a um trabalho que inverte totalmente o método científico, colocando a percepção à frente dos factos, sem sequer considerar que existe uma dimensão manifesta e uma dimensão “invisível” ao indivíduo da realidade, quando o ideal científico será transcender esta limitação perceptiva.

A questão da dinâmica das civilizações não é nova. Aristóteles já se teria debruçado sobre a mesma, qualificando os povos de acordo com o clima da sua origem. Na linhagem deste autor, vários trabalhos surgiram, destacando-se Ibn Khaldun, com a sua principal obra, al-Muqaddimah, ou “a introdução”, descrevendo o processo de emergência, coesão, expansão, declínio e desagregação civilizacional. Nascido na actual Tunísia, e de ascendência peninsular como demonstra o seu nome al-Hadhrami, ou “o de Hadhramaut”, província do actual Yemen, Ibn Khaldun acompanhou de perto a subida e a queda de  vários poderes políticos no Maghreb e no Médio Oriente, constatando padrões históricos que se repetiam sucessivamente. Povos de zonas de escassez, unidos e endurecidos pela luta da sobrevivência, desciam recorrentemente sobre povos de zonas de abundância, instalando-se, levando estas regiões a novos picos económicos e culturais, e de seguida acomodando-se, perdendo a característica que deles fez conquistadores, e subsequentemente sendo conquistados por um novo invasor, frequentemente oriundo das mesmas paragens. Para articular este fenómeno, Ibn Khaldun recorreu ao termo árabe Asabiyyah, uma espécie de solidariedade tribal, que seria o animus destes movimentos. Também outros autores como Lev Gumilev, que veicularam a teoria que actualmente seria a espinha dorsal de autores tão notórios para a geopolítica como Alexander Dugin, o conhecido ideólogo de Vladimir Putin, se serviram de conceitos semelhantes, o que revela a importância dos mesmos. Gumilev chamar-lhe-ia passionarnost, mas esta ideia de dinâmica civilizacional é transversal. Existem factores geográficos e económicos que influenciam a cultura e a vivência do grupo. Estes ditam a sua actuação no mundo at large e não se fazem por linhas simples de que a conflitualidade deriva simplesmente da diferença.

As contribuições de Ibn Khaldun não se prendem só ao funcionamento das sociedades e da filosofia da história. Ideias como a curva de Laffer ou a teoria do valor-trabalho têm raíz em Ibn Khaldun, e a clarividência que o mesmo demonstra é notória quando damos conta do quão relativamente precoces estas ideias foram no tempo, tendo em conta quando foram adoptadas por outros autores e a importância que têm nos dias de hoje. Dir-se-ia até que a tese de Ibn Khaldun não só actualiza, mas também corrige Samuel Huntington nas suas lacunas de perspectiva, não fosse o facto de o primeiro ter realizado o seu trabalho 600 anos antes. O que é realmente espantoso, é a ausência do autor magrebino dos curricula de tantos cursos de relações internacionais. Se o objectivo for compreender o mundo, é necessário realmente olhar para ele e não apenas para uma parte, e isso implica reconhecer que existe produção de conhecimento de longa data, em locais de que não estamos habituados a ouvir falar, que os sistemas internacionais nem sempre foram o que são agora, e que a espécie humana reflecte sobre a natureza das coisas, qualquer que seja a sua vivência e história. Pior do que assumir uma posição à-la Hegel, e dizer que a história do ocidente é a história da humanidade e que mais nenhuma civilização (conceito que me parece problemático quando aplicado a um conjunto tão diverso de grupos de indivíduos) produziu algo de relevante, notável, ou comparável às conquistas da mesma, é fingir que mais nada existe além da civilização ocidental, querer compreender, ou até contribuir para a emancipação do “outro”, sem nunca validar ou reconhecer a sua existência.

1 comentário a "Ibn Khaldun, ciclos civilizacionais e uma perspectiva da ciência"

  1. Boom! Senti o impacto da bala, vamos lá ver se mais alguém sente. Muito dificilmente.
    Bom artigo

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