EUA – Ambivalência e Futuro Incerto

Os documentários National Bird e Dirty Wars exploram com seriedade um dos aspectos mais encobertos da política externa norte-americana da última década: as vítimas esquecidas de ataques de drones, em países longínquos como o Paquistão, Afeganistão, Iémen e Somália, assassinadas remotamente, como dano colateral da guerra ao terrorismo. Em conjunto com a perseguição a whistleblowers, o programa de espionagem da NSA, ou a tortura utilizada em Guantanamo, o tema representa uma razão legítima para o aproveitamento político dos mais convenientes críticos do seu Governo, assim como um provável elemento de radicalização e promoção de terrorismo. Esta realidade é uma peça fundamental da política neoliberal que dominou as últimas décadas, contudo, é um tema que não divide particularmente, nem o congresso dos EUA, nem o seu eleitorado.

Entre a exportação de valores democráticos, do ideal de liberdade individual, do direito ao protesto e de expressão; e as consequências trágicas de acções como o lançamento de bombas nucleares sobre Hiroshima e Nagasaki, a história dos EUA projeta uma imagem ambivalente no mundo. Durante a Guerra Fria, em Cuba, no Laos, na Coreia do Norte, ou no Irão, o apelo soviético apoiava-se neste tipo de contradições políticas e filosóficas – entre os ideais ocidentais e os danos colaterais das suas ações militares geoestratégicas – para granjear simpatia pelo modelo comunista, ou pelo menos para garantir alianças estratégicas. Em território norte-americano, os protestos contra a intervenção no Vietname foram um tema central de discussão política interna. Após a Guerra Fria, os EUA tornaram-se numa potência hegemónica, que já vinha seduzindo o mundo com a sua retórica vitoriosa e através da exportação cultural. Teve importantes instrumentos de divulgação na imprensa e televisão, que, mais recentemente, ganharam um maior alcance com a internet e as redes sociais; promovendo, ao mesmo tempo, a sua indústria tecnológica, musical e cinematográfica – o sonho americano de Hollywood.

A filosofia política e económica do capitalismo liberal e do mercado livre, que permeia o funcionamento do sistema internacional pós-Guerra Fria, não é perfeito, mas é apelativo, sobretudo pelos seus resultados em termos de evolução do IDH na maior parte dos países. Desde a origem da tradição política norte-americana, a população supervisiona as acções do governo, o poder político é visto com desconfiança e há entre os seus cidadãos um ansioso desejo de evitar a sua concentração numa figura única, que se manifesta no mecanismo de balança de poderes – os checks and balances. Para o seu eleitorado os assuntos políticos mais relevantes na hora de votarem são internos, sobretudo a economia nacional, que na administração de Donald Trump teve especial atenção e resultados convincentes, sob a máxima dos “homens e mulheres esquecidos” pela globalização. Conseguiu, ao mesmo tempo, níveis elevados de emprego.

Contudo, há um tema especialmente fraturante na conjuntura social e política americana, e que contribuiu em muito para acirrar a sua divisão política interna: o racismo. O país carrega uma ferida profunda na sua história, marcada pela apropriação de território dos nativos por parte de colonos europeus, por uma guerra civil, pela escravatura e por uma luta interna pelo direito à igualdade racial e de cidadania, que teve provavelmente em Martin Luther King e nos protestos pacíficos a chave da sua reforma social. No entanto, essa ferida permanece, fazendo-se notar mais uma vez num ano que marcará certamente o país e as Relações Internacionais – uma complexa situação de pandemia global, em que o mundo procura combater uma ameaça comum, em paralelo com uma elevada preocupação com as alterações climáticas. Num ano de eleições nos EUA, o debate sobre a utilização concertada a nível global de estratégias de prevenção de contágio passou a estar no centro da atuação dos governos mundiais. Essa preocupação foi recentemente substituída por manifestações contra a violência polícial e racismo, dominadas pelo movimento Black Lives Matter (BLM), tendo como catalisador a morte de George Floyd. Os protestos pacíficos prosseguem desde a sua ocorrência e foram repetidos em dezenas de outros países, mas foram acompanhados inicialmente de alguns tumultos, nomeadamente violência, pilhagens e incêndios. Entre vigorosas demonstrações de liberdade de expressão pendeu inicialmente o caos de uma cultura urbana saturada de símbolos de violência. É um período na história dos EUA que evoca a Roma de Nero a arder, num século turbulento do Império Romano; ou, por outro lado, quando este foi assolado pela peste, sob a liderança estoica de Marco Aurélio.

Há acusações mútuas e contínuas de aproveitamento político de cada situação que o país enfrenta entre democratas e republicanos, agitadas pelo receio de um eventual abuso de poder numa figura única e, por sinal, extremamente polémica, no presidente Donald Trump.  Por outro lado, Jonathan Haidt indica nos seus estudos de psicologia sobre a divisão política nos EUA, que esta já se acentuava claramente nas últimas décadas; dicotomia essa que é acompanhada pelos media do país. É esta grande cisão que caracteriza o sistema político americano, pela sua particularidade bipartidária, que tem no bastião da liberdade de informação um poderoso símbolo no centro da sua identidade. A indústria dos media apoia-se no equilíbrio da riqueza de pontos de vista sobre cada assunto, mas envolve-se também numa disputa constante de propaganda ideológica, afecta às facções da população a quem mais claramente apelam, como atesta a recente demissão do editor da página editorial do New York Times (devido à discussão interna, resultante da inclusão de um polémico op-ed escrito por um senador republicano), e que é estudada ao detalhe nas campanhas eleitorais.

Uma peça fundamental para o futuro das sociedades democráticas e que se desejam transparentes – a informação – permeia a política e a sociedade norte-americanas, afigurando-se uma arma determinante nas disputas geopolíticas do séc. XXI. É nítido o impacto da mediatização no processo eleitoral e em algumas das mais importantes decisões políticas, aspecto que assume particular relevância sob uma ameaça epidemica global. Portanto, a informação move massas e auxilia a moldar a conjuntura – o “mass madness” no filme Network; enquanto, ao mesmo tempo, há uma crescente preocupação no Ocidente, que urge censurar o descontrolo e desregulação informática da internet. A pesquisa de Jonathan Haidt indica que os liberais têm a tendência de celebrar a diversidade e questionar a autoridade, o que significa que são mais propensos a desencadear uma revolução, ao contrário dos conservadores, que procuraram conservar a ordem, a qual, por seu turno, se pode tornar irredutivelmente estática e autocrática. Em suma, citando John Stuart Mill em Sobre a Liberdade: “He, who knows only his side of the case knows little of that”.

Finalmente, talvez a tendência para estas convulsões seja um sinal da necessidade de redenção perante os muitos erros do passado e da necessidade de novos símbolos comuns de esperança, num momento em que a figura do presidente do país assume um estilo de comunicação especialmente divisivo. Entrementes, tanto os partidos políticos, como os media, estão mais polarizados. Para a preservação de uma ordem política democrática e uma sociedade coesa e livre, que procura impulsionar-se no futuro através de objetivos e estratégias comuns, seria necessário aos políticos e cidadãos dos EUA trabalharem no sentido da máxima incluída na Constituição dos Estados Unidos: “toward a more perfect union”, ou relembrar as palavras de Martin Luther King: “Nonviolent resistance is not aimed against oppressors, but against oppression”. Esta matéria poderá ser decisiva no futuro incerto de uma sociedade dividida que procura a união, mas que ainda assim tem esse privilégio e a liberdade de o ser.  


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